ÍNDICE

Veja o novo livro:
A arte da guerra chinesa: uma história da estratégia na China de Sunzi a Mao Zedong
Sem sombra de dúvida, a Arte da Guerra de Sunzi [Sun Tzu, numa grafia mais conhecida] é o livro chinês mais publicado, divulgado e vendido não apenas no Brasil, mas também na maior parte do mundo Ocidental. Esse antigo tratado sobre a guerra ganhou uma dimensão inesperada, saindo das academias militares e alcançando o grande público, sendo avidamente consumido por professores, empresários, políticos, pensadores, e mesmo, pelo público leigo. Existem várias razões para esse sucesso. A Arte da Guerra é um livro simples, direto e acessível, que encontrou acolhida entre todos aqueles que queriam saber um pouco mais sobre as técnicas militares chinesas: surpreendentemente, porém, ele não é o único livro sobre estratégia a surgir na China. Ficaremos surpresos ao descobrir que os chineses já escreveram diversos livros sobre a questão da guerra, e muitos concorriam com o de Sunzi na predileção do público. Veremos, ainda, que toda uma escola filosófica se construiu, ao longo dos séculos, em torno da questão da estratégia, e que em pleno século XX, líderes como Mao Zedong empregavam as artimanhas de Sunzi em batalha – e disputavam o prestígio de serem conhecidos como “conhecedores” da arte da guerra. Assim, o que veremos nesse livro é a longa história sobre a gênese e o desenvolvimento do pensamento militar chinês, alguns de seus muitos autores, e como essa escola de estrategistas atravessou os séculos e continua bastante atual. Abordando um aspecto pouco conhecido da filosofia chinesa, veremos como a China não se resumia a Confucionismo, Taoísmo ou Budismo – mas que os estrategistas estavam presentes em todas as grandes conquistas da civilização chinesa, e que Sunzi teve um papel fundamental nessa história.


ÍNDICE 

APRESENTAÇÃO
HISTÓRIA
1.Shujing – Cânone de Gaoyao.
2.Chunqiu – a cronologia histórica.
3.Liji – As Eras da História.
4.Hanfeizi – Abolir o passado.
5.Sima Qian – Recordações Históricas.
6.Liu Zhiji – A Narração dos Eventos.
7.Sima Guang – Descontinuidades temporais.
8.LuTanglai – A compreensão da história.
9.Ma Duanlin – A história como metáfora da realidade.
10.Kang Youwei – Uma teoria sobre o futuro da História.

11.Yijing – O poder de Domar do Pequeno.
12.Shujing – O grande Plano.
13.Confúcio – Sabedoria é Educação.
14.Mozi – Contra a cultura.
15.Laozi – A via é o desprendimento e a Não–ação.
16.Legistas – Shang Yang e a criação dos padrões corretos.
17.Sima Tan – Discussão sobre as seis escolas.
18.Dong Zhongshu – A fusão do confucionismo e da cosmologia.
19.Wang Chong – Sabedoria e ceticismo.
20.A vias do budismo.
21.Hanyu – Uma comparação entre confucionismo, daoísmo e budismo.
22.Zhuxi – O Máximo Supremo e a redenção de Confúcio.
23.Wangfuzhi – Resgatando a via.
24.Maozedong – Sobre a contradição.
25.Shujing – O Mandato Celeste.
26.Liji – Como governar?
27.Hanfeizi – como um monarca deve agir?
28.Lisi e a queima dos livros.
29.Lujia – o governo ideal.
30.Sima Guang – A estrutura do Poder Imperial.
31.Huang Zongxi – O verdadeiro interesse dos governantes.
32.Sun Yatsen – Os poderes do povo.
33.Maozedong e a democracia socialista.
34.Deng Xiaoping – Um país, dois sistemas.
35.Deng Xiaoping – Coexistência pacífica e Taiwan.
36.Liji – Fengjian; o Feudalismo chinês.
37.Mêncio – O sistema dos nove terrenos.
38.Shang Yang – A importância da agricultura.
39.Guanzi e as regulações.
40.Sima Qian – Sobre a riqueza e o comércio.
41.Yantienlun – Debates sobre o monopólio econômico.
42.Maozedong e o Grande Salto.
43.Deng Xiaoping – a não contradição entre socialismo e capitalismo.
44.Liji – O que é Li (Ritos)?
45.Liji – O Nascimento.
46.Liji – Funeral e Luto
47.Liji – O Ciclo da vida.
48.Liji – Anciãos.
49.Confúcio – Os cinco deveres universais.
50.Xiaojing – A Piedade Filial.
51.Mêncio e Guanzi – As classes sociais.
52.Sima Guang – Da conduta correta dos funcionários públicos.
53.Imperador Jing de Han – Sobre a corrupção.
54.Fang Yizhi – Sobre a vida dos mercadores.
55.Uma canção camponesa.
56.Shijing – A labuta dos soldados.
57.Luchi – Um calendário campestre.
58.Mao Zedong – Análise das classes chinesas.
59.Banzhao – O Tratado das Mulheres.
60.Fang Chungshu – O Livro da Alcova.
61.Nulunyu – Analectos Femininos.
62.Mercado das Concubinas.
63.Cartas de Família de Zen Guofan.
64.Sobre o enfaixamento dos Pés.
65.Mao Zedong e a questão da Mulher na China.
66.Xinran e as "Boas mulheres da China".

67.Shijing – apontamentos sobre o Céu.
68.Criação (1) – Uma teoria do Huainanzi.
69.Criação (2) – O Mito de Pangu.
70.Deuses dos espaços, do Huainanzi.
71.O Deus da cozinha.
72.Os deuses do portão.
73.Da alma, Zhuangzi.
74.Dedicação aos antepassados, do Shijing.
75.Sobre Fantasmas, por Wang Chong.
76.Conto de fantasmas, do Soushenji.
77.A imortalidade e o elixir da longa vida, de Gehong no Baopuzi.
78.Os fangshi, de Zhanghua no Bowushi.
79.Sobre a imortalidade, de Chang Shihuan.
80.Criaturas bestiais, do Shanhaijing.
81.O budismo chinês.
82.A crítica ao budismo chinês, de Hanyu.
83.Sobre a existência dos demônios, de Hanyu.
84.Lisi – Memorial para manutenção dos estrangeiros.
85.Sima Qian – Os Xiongnu.
86.Fanye – Uma descrição sobre os romanos.
87.A resposta mongol a uma das primeiras missões católicas no Oriente.
88.A resposta do imperador Qing Qianlong ao embaixador britânico Lorde Macartney.
89.As viagens de Fang Zhaoluo em Portugal.
90.Mao Zedong – Os imperialistas são tigres de papel.
91.Deng Xiaoping: a Teoria dos Três Mundos.
92.Sobre a Música, do Liji.
93.Sobre a Escrita, por Chang Yenyang.
94.O significado da Arte, por Guoxi.
95.A apreciação da Literatura, do Wenfu, por Luji.
96.A revolução na Literatura, por Chen Duxiu e a Nova Arte Comunista, da Assembléia de Yenan.
97.A Educação na Antiguidade, do Liji.
98.A Educação pelos seis clássicos, do Liji.
99.A Educação moderna, por Kang Youwei.
100.A Revolução Cultural.



APRESENTAÇÃO

Cem Textos de História da China é, antes de tudo, um guia sobre a história dessa civilização, mas através de suas próprias vozes. Em português, temos vários “livros fontes” que cobrem períodos diversos da história ocidental, e que serviram de modelo para a construção deste nosso trabalho. No entanto, nenhum deles ainda tinha se aventurado, diretamente, no âmbito das culturas asiáticas. Algumas questões básicas foram determinantes para isso – desde o desinteresse da academia até mesmo a inexistência de especialistas habilitados a realizá-lo – e o que pretendemos, portanto, é cobrir esta lacuna, ainda que de modo bastante geral e introdutório.

O caso específico da história chinesa guarda, contudo, dificuldades específicas; como podemos cobrir algo em torno de 5 mil anos de existência em apenas cem textos? A história ocidental pode ser dividida, classicamente, em períodos razoavelmente delimitados, o que gera uma possibilidade (mesmo que controversa) de determinar quais textos podem expressá-los. A China, porém, não segue esta cronologia, e tal tentativa – inserir marcos temporais ocidentais para compartimentar seu desenrolar histórico e cultural – seria totalmente artificial.

O que veremos nesta sucinta coletânea é uma tentativa de apresentar a China por suas próprias vozes e meios, buscando centralizar a apresentação dos textos em tópicos específicos. Inevitáveis omissões, bem como o critério de escolha, foram organizados por mim, que irei explicar a seguir.

A dificuldade de um critério

Para construir uma apresentação geral, e ao mesmo tempo reduzida, da história e da cultura chinesa, existem algumas dificuldades prementes que se impõe em sua elaboração.

A primeira idéia seria de organizar uma apresentação por autores, arrumados em ordem cronológica, o que inevitavelmente resultaria num livro volumoso – o que não é, de imediato, nossa proposta. O problema central deste método, no entanto, é que os autores chineses falam, muitas vezes, sobre assuntos diversos – um letrado poderia escrever tanto sobre economia quanto poesia – o que nos levaria ou a escolher um assunto que marca predominantemente a obra de um autor ou, que reduziria seriamente a lista de escritores que poderíamos utilizar.

O mesmo pode ser dito de uma apresentação organizada em torno, especificamente, das obras. Como alguns livros são almanaques de assuntos diversos, escolher um único tema que representasse a obra seria, por vezes, descaracterizá-la. Além disso, os aspectos temporais se impõem aqui como uma condição de continuidade das obras. O Liji (Recordações dos Rituais), por exemplo, é uma fonte de referência ao longo de milênios na cultura, enquanto outras obras têm uma importância somente contextual.

Por esta mesma razão exposta acima, decidi não utilizar o critério temporal, como havia comentado. A divisão por marcos ocidentais – época antiga, medieval, moderna, etc – se acoplam casualmente ao curso dos acontecimentos chineses, mas não os definem de modo eficaz (a dinastia Tang, um dos momentos brilhantes da era imperial ocorre, por exemplo, durante as primeiras crises da era medieval na Europa); poderíamos também utilizar as divisões dinásticas que a própria história da China utilizou para organizar suas fases, mas ainda assim, elas não dariam conta de representar a continuidade de certos textos e autores na formação ideológica da mesma.

Por fim, escolhi como método para apresentação dos textos a divisão já consagrada em temas (história, economia, política, etc.) que é um tanto estranha à tradição chinesa, mas que facilitaria a compreensão ocidental sobre as visões de mundo desta cultura. Ressalvas, porém, são necessárias. Lembremos, antes de tudo, que o objetivo da coletânea é mostrar o desenvolvimento geral desta civilização, o que implica em descontinuidades temporais e intelectuais. Muitas vezes, podemos ser levados a acreditar que a preeminência de textos antigos denotaria certo imobilismo por parte desta civilização, mas este é um engano tremendo. Logo na primeira seção, História, veremos que o debate sobre as teorias para compreensão da história evoluíram constantemente; assim sendo, o fato dos chineses recorrerem a exemplos do passado não implica, necessariamente, numa “não-evolução”, como alguns autores ocidentais quiseram entender. Lembremos que até a metade do século 20 muitos currículos escolares ocidentais ainda mantinham o estudo do grego, latim e dos clássicos greco-romanos como disciplinas básicas.

Do mesmo modo, a apresentação em tópicos mantém a possibilidade de propor as visões diversas que os autores possuíam sobre os temas em questão. Citemos novamente o caso do Liji; esta riquíssima fonte serviu de escopo para inúmeras questões culturais envolvendo a ideologia chinesa, e aparecerá em vários momentos de nossa coletânea; já o Shanhaijing (Tratado das Montanhas e dos Mares) trata-se de uma coletânea única e exclusiva de personagens, casos e temas mitológicos, e sua aparição está circunscrita ao tema Religião.

Assim sendo, compreendo as limitações desta coletânea, mas espero que ela sirva de guia para aqueles que pretendem iniciar um estudo sério sobre a civilização chinesa. Em cada tópico, uma breve apresentação explicará os pontos fundamentais da escolha de cada texto, e o que eles pretendem. Ao fim, uma cronologia e a bibliografia servirão de referência para os interessados em prosseguir no exigente, porém recompensador, caminho da Sinologia.

André Bueno
2009

HISTÓRIA

Nesta seção inicial, buscaremos compreender a maneira como os chineses entendiam a construção da História (shi). O primeiro a preocupar-se seriamente com o assunto foi o sábio Confúcio (-551-479), que editou os mais antigos clássicos da literatura chinesa – o Tratado das Mutações (Yijing), dos Poemas (Shijing), dos Livros (Shujing), da Música (Yuejing), as Recordações Rituais (Liji) e as Primaveras e Outonos (Chunqiu). Destes livros, dois tratam diretamente sobre a história – o Shujing e o Chunqiu, sendo que o Liji ainda faz largas referências à mesma. Neles, Confúcio lança o modelo de escrita histórica que embasariam seus continuadores: o Shujing é a recolha de grandes discursos e decretos, bem como de detalhes biográficos dos grandes heróis chineses; já o Chunqiu é uma seca cronologia de eventos, arranjados por datas e marcos astronômicos, que precisou ser comentada, posteriormente, para ser compreendida. Ambos os trabalhos serviam de estofo para a discussão de tópicos éticos e morais relativos à vida pública, política e social. Quase 3 séculos depois, Hanfeizi (séc. -3), pensador de uma escola filosófica extremamente radical, o Legismo, propunha o abandono do pensamento histórico e dos exemplos do passado. Se suas teorias serviram para a formação do novo império Qin, no século - 3, não vingaram, porém, no campo da história. Sima Qian (-145-85) é considerado o primeiro grande historiador chinês de fato, organizando os métodos, teorias e modos de apresentação da história chinesa. Seu livro, as Recordações Históricas (Shiji) é um marco na historiografia chinesa, servindo de modelo para os autores posteriores. Quanto a Liuzhiji (+661 +721), seu Compreendendo a História (Shitong) seria o primeiro manual sobre redação e pesquisa histórica, explicando os conceitos, termos e técnicas empregados na confecção da mesma. Sima Guang (+1019 +1086) foi um prolixo historiador e intelectual da época Song (+960 + 1279), e seu Espelho do Governo (Zizhi Tongjian) é uma discussão aprofundada sobre as eras históricas, a descontinuidade entre cronologia, cultura e ideologia, bem como dos propósitos do historiador. Em sua época, no entanto, prevaleceu a interpretação histórica proposta por Zhuxi (1130+1200) em seu Tongjian gangmu, grande filósofo daquele momento que, no entanto, manteve a estrutura de escrita e interpretação proposta pelo Chunqiu (e por esta razão, não incluída aqui). Lu Tanglai (1137 + 1181) e Ma Duanlin (séc. 13) reincorporam, porém, as discussões de Sima Guang, dando continuidade ao processo de “desconstrução” das “certezas históricas”. Por fim, Kang Youwei (1858 + 1927), pensador da época final do império Qing, propunha uma interessante teoria de evolução histórica, que previa a integração do mundo numa era futura.

1.Shujing – Discursos de Yao.
O Canon de Yao - Neste texto, um dos soberanos míticos da China, Yao, determina que dois irmãos, Xi e He, sejam seus enviados para medir o mundo (ou seja, a China) e definir as fronteiras, a medição do espaço e do tempo. Nele vemos, pois, o embrião da idéia confucionista de articular a natureza, o cosmos e a soberania.

Examinando a Antigüidade verificamos que o Di Yao era intitulado Fang-xun. Era respeitoso, inteligente, culto e meditativo, de modo natural e sem esforço. Era sinceramente cortês e capaz de toda complacência. A brilhante influência dessas qualidades era sentida nas quatro partes da terra e chegava ao Céu por cima e, por baixo, a terra.

Fez com que se distinguissem o capaz e o virtuoso. E daí seguiu-se ao amor de todos nas nove classes de sua casta, que tornou harmoniosa. Também ordenava e educava os habitantes do seu domínio, tornando-se todos brilhantemente inteligentes. Finalmente uniu e harmonizou milhares de Estados e assim se transformam as gentes de barrete negro. O resultado foi a concórdia universal.

Determinou a Xi e He, em respeitoso acordo com sua observação dos vastos céus que calculassem e delineassem os movimentos e aspectos do Sol, da Lua, das estrelas e dos espaços zodiacais, entregando desse modo as estações à observação do povo.

Determinou ao segundo irmão Xi, especialmente, que residisse em Yu-i, no chamado Vale Claro, e ali recebesse respeitosamente, como a um hóspede, o Sol nascente, e ajustasse e organizasse os trabalhos da Primavera. “O dia – disse – é de extensão média e a estrela está em Niao. Assim poderás determinar exatamente a Primavera média. As criaturas distantes nos campos e os pássaros e animais concebem e se juntam”.

A seguir ordenou ao terceiro irmão Xi que residisse em Nan-jiao, na chamada Capital Brilhante, aí ajustando e organizando a transformação do Verão e observando respeitosamente o limite exato da sombra. “O dia – disse – está em sua maior duração e a estrela está em Huo; assim poderás determinar exatamente o Verão médio. As criaturas estão mais dispersas e os pássaros e animais têm curtas penas e pelos e mudam suas penugens”.

Ordenou separadamente ao segundo irmão He que residisse no oeste, no chamado Vale Escuro, e ali convocasse respeitosamente o Sol poente a fim de ajustar e organizar os trabalhos completos do Outono. “A noite – disse – é de duração média e a estrela está em Xu. As criaturas sentem-se cansadas e os pássaros e animais têm suas penugens em bom estado”.

Mais tarde determinou ao terceiro irmão He que residisse na região do norte, na chamada Capital Sombria, e ali ajustasse e organizasse as mudanças do Inverno. “O dia – disse – está em sua menor duração e a estrela está em Mao. Assim poderás determinar exatamente o Inverno médio. As criaturas ficam em casa e a penugem dos pássaros e animais é então abundante e espessa”.



2.Chunqiu – Cronologia Histórica.
As “Primaveras e Outonos” se constituíam de uma cronologia, feita por Confúcio, para relembrar eventos de cunho moral e histórico. Por esta razão, seu texto é seco e pouco explicativo – na época de Confúcio, tais eventos eram conhecidos e debatidos. No entanto, para que não se perdessem tais interpretações, diversos comentários do livro foram feitos, dos quais o mais famoso, na tradição, é o Zuozhuan, de Zuo Qiuming. Suas datas são incertas; no entanto, o que vemos nos “comentários” é, justamente, a explicação que o autor busca fixar sobre um acontecimento.

11º ano do Duque de Xiang, de Lu.
O Duque Chen assassinou o ministro Xieye.

Comentário: O Duque Chen, junto com dois ministros, Kungning e Yi Huangfu, eram amantes da viúva Chi, de um antigo servo do Duque Chen chamado Xia. Um dia, os três pegaram uma peça de roupa íntima da cortesã e começaram a fazer piadas.

Xieye os admoestou sobre isso, dizendo: se duques e ministros fazem este tipo de brincadeira imoral, o povo não terá bons exemplos, e logo vai fazer o mesmo.

O Duque se envergonhou, e prometeu não mais fazê-lo. No entanto, os ministros não gostaram da reprimenda, e fizeram um complô, junto com Chen, para assassinar Xieye, o que ocorreu logo.



3.Liji – As Eras históricas.
O que se apresenta nesta seleção do Liji é a constituição de uma teoria para explicar as fases de decadência e ascendência da civilização chinesa. No Lunyu (Diálogos), Confúcio afirmava a dificuldade de reconstituir o passado: "Posso falar sobre o ritual Xia? Seu herdeiro, o país de Qi, não preservou suficientes evidências. Posso falar sobre o ritual Yin? Seu herdeiro, o país de Song, não preservou suficientes evidências. Não existem registros suficientes e tampouco homens sábios suficientes; caso contrário, eu poderia obter evidências a partir deles". Esta condição provavelmente deu origem a concepção de uma decadência cultural e histórica, ainda mais perceptível pelo período de crise que se avizinhava. Este é o cerne do texto que se segue.

Quando reinava o grande Dao (na Idade de Ouro) o mundo era propriedade comum (não pertencendo a nenhuma família dominante), os governantes eram escolhidos de acordo com a sua sabedoria e capacidade, havia paz e confiança mútua. Por isso as pessoas não tratavam apenas os próprios pais como pais e os próprios filhos como filhos. Os anciãos sabiam prezar a sua ancianidade e os jovens sabiam usar o seu talento, os mais moços tinham os velhos por quem olhar, e as viúvas desamparadas, e os órfãos, e os mutilados e aleijados eram tratados com carinho. Os homens tinham afazeres específicos e as mulheres cuidavam dos lares. Como as pessoas não desejavam ver seus bens desperdiçados, não tinham motivo para os conservarem egoisticamente para si; e como as pessoas tinham energia mais do que suficiente para o trabalho, não precisavam limitar-se a trabalhar só em proveito individual. Por isso não havia malícia nem intrigas, nem ladrões nem bandidos, e conseqüentemente não havia necessidade de cada qual fechar a sua porta (ao cair da noite). Assim era o período do Datong, ou a Grande Comunidade. Agora, porém, já não reina o grande Dao e o mundo está dividido entre famílias adversas (tornou-se propriedade privada de algumas famílias), e as pessoas consideram como pais apenas os próprios pais e como filhos apenas os próprios filhos. Cada qual entesoura seus bens e trabalha apenas em proveito próprio. Estabeleceu-se uma aristocracia hereditária e os diversos Estados construíram cidades, cidadelas e fossos para sua defesa. Os princípios da Li (regras sociais) e do direito funcionam como simples regras de disciplina; por meio de tais princípios os cidadãos procuram manter a distinção oficial de governantes e governados, ensina-se aos pais e filhos e irmãos mais velhos ou mais moços e esposos e esposas a viverem em harmonia, estabelecem-se obrigações sociais, e vive-se em grupos de aldeias. Os mais fortes fisicamente e os mentalmente mais vivos galgam posições de relevo, e cada um trata a sua própria vida. Daí a malícia e os ressentimentos, resultando em guerras. (Os grandes fundadores de dinastias como) Os Imperadores Yu, Tang, Wen, Wu e Cheng, e o Duque Zhou, foram os melhores homens desta época. Sem uma única exceção, foram todos seis profundamente ciosos dos princípios da Li, mediante os quais a justiça foi mantida, a confiança geral foi instaurada, os erros e equívocos foram banidos. Um ideal de verdadeira humanidade, Ren, foi estabelecido, e cultivaram-se as boas maneiras e a cortesia como sólidos princípios a serem seguidos pelo povo. Qualquer autoridade que violasse tais princípios haveria de ser denunciada como inimigo público e destituída do cargo. Este se chama o Período da Xiaokang ou "o Período da Paz Menor".



4.Hanfeizi – Abolir o passado.
Neste texto, o filósofo Hanfei propõe o rompimento com o passado, teoria necessária ao estabelecimento de uma nova ideologia imperial, baseada nos preceitos legistas. No entanto, suas propostas não vingaram, em virtude da importância que a história possui no imaginário e na filosofia chinesa.

Na antiguidade, quando os homens eram uns poucos e as criaturas selvagens abundavam, apareceu um sábio com alguns pedaços de madeira e armou algumas construções, que serviram para as pessoas se guarnecerem dos lobos, tigres e leões que os atormentavam. As pessoas estavam tão felizes que o nomearam o rei do mundo, chamando-lhe de “o grande construtor”. Naquela época as pessoas comiam frutas, verduras, ostras e mexilhões. Mas os alimentos que armazenavam apodreciam logo e muitos ficavam doentes, morrendo. Então um sábio, juntando madeira, fez fogo e cozinhou os alimentos, e a partir daí menos pessoas ficaram doentes. Este sábio foi reverenciado como o homem do fogo.

Na época das grandes inundações, que arrasavam com populações inteiras, Cun e Xia fizeram os canais que desviaram as águas e assim evitaram terríveis calamidades. Não faz muito, alguns reis cruéis foram destituídos por Tang e Zhou.

Agora vejam: se construíssemos cercas de madeira, ou tivéssemos feito fogo na época das inundações, isso teria sido completamente ridículo. Se alguém sugerisse fazer canais para evitar as atrocidades dos reis violentos, também teriam sido inúteis. Os sábios, na realidade, não tomam os sucessos do passado e tentam aplicá-los nos dias de hoje; o que fazem é analisar as necessidades atuais e atuar de modo apropriado.

Havia um granjeiro em Zhou que arava terra, e em seu campo havia um toco de árvore caído. Um dia, um coelho saiu correndo do mato e se chocou contra o tronco, quebrando o pescoço. Ao vê-lo, o granjeiro deixou o arado e se sentou no tronco, esperando que outro coelho fizesse o mesmo. Só que nenhum outro coelho bateu no tronco, no inverno ele não teve o que comer porque descuidou de suas tarefas e terminou sendo motivo de piadas para os vizinhos. Por isso eu digo: todos aqueles que se valem das regras do passado para governar nos dias de hoje, podem ser chamados com justiça de “Vigilantes do tronco”.



5.Sima Qian – Recordações Históricas.
No primeiro trecho selecionado do Shiji, Sima Qian explica como organizou a produção de sua obra de história; no segundo texto, ele aponta como funciona a teoria dos ciclos dinásticos, findando com a época Han, na qual escrevia.

Busquei preservar e garantir a continuidade das antigas tradições imperiais para que elas não fossem corrompidas ou perdidas. Sobre a carreira dos grandes reis, eu pesquisei seus começos e examinei seus fins; eu vislumbrei seus tempos prósperos e observei seus declínios. Em todos estes casos, eu os discuti e examinei, e o que fiz foi uma introdução geral a história das três dinastias e aos anais de Qin e Han, vindo desde a época do Imperador amarelo até os dias de hoje, que estão organizadas nos doze anais básicos. Depois de tê-los posto em ordem e os completado, em função de algumas diferenças na cronologia de alguns períodos, em que as datas não estão claras, eu as organizei nas tabelas cronológicas. Sobre as mudanças nos ritos e na música, sobre a astronomia e o calendário, sobre o poder militar, as montanhas e os rios, espíritos e deuses, a relação entre o céu e a terra, as práticas econômicas e suas mudanças ao longo do tempo, eu fiz os oito tratados. (...) Para aqueles que serviram com espírito moral aos seus senhores e governantes, para estes eu fiz as trintas casas genealógicas. (...) para manter o nome daqueles que legaram seu nome a posteridade do mundo, eu fiz as setenta biografias. São assim cento e trinta capítulos, 526.500 palavras, o livro da Grande História, compilado em ordem para reparar as omissões e ampliar as seis disciplinas.* este é o trabalho de uma família, designado para completar as variadas interpretações dos seis clássicos e pôr em ordem a grande miscelânea de ditos das cem escolas.

[...]

Este é o parecer do historiador: o governo da dinastia Xia foi marcado por bons augúrios, mas com o tempo deteriorou-se e voltou a rusticidade e a decadência. Shang substituiu Xia, e reformou seus defeitos por meio da virtude da piedade filial. Mas esta piedade degenerou, e as pessoas dirigiram-se para o mundo das superstições e espíritos. Então Zhou seguiu corretamente, corrigindo esta falta por meio dos rituais e da ordem. Mas os ritos se deterioraram porque caíram nas mãos daqueles que os transformaram em um simples espetáculo. Então, tornou-se necessário novamente acabar com este espetáculo, reformar o mundo e buscar novamente um bom destino. Este foi o caminho das três dinastias, e o ciclo dinástico é um caminho que começa, termina e continua sempre.

É óbvio então que nos final de Zhou e nos tempos iniciais de Qin os ritos estavam deteriorados, e a ordem corrompida. Mas o governo Qin falhou ao tentar corrigir estas falhas, adicionando a elas leis e punições duríssimas. Este não foi um grave erro?

Por isso, quando os Han chegaram ao poder, buscando consertar as falhas de seus predecessores, e trabalhando para corrigir o mundo e pô-lo em ordem, seus esforços seguiram corretamente a ordem apropriada e determinada pelo Céu. Eles ordenaram a corte em doze meses, coloriram as vestimentas e as carruagens de amarelo e o restante o acompanhou.



6.Liuzhiji – A narração dos eventos.
O Livro de Liuzhiji, o Shitong, é um manual para escrever história e compreender seus fundamentos e conceitos principais. No texto a seguir, Liu nos apresenta como deve ser feita a narração dos eventos, quais seus tipos e como descrevê-los.

Em escritos históricos que prezam a excelência, o mais importante de todos é a narração dos eventos. Elas falam dos méritos e das transgressões, recordam o que é bom e o que é ruim, e de um modo que é elegante sem ser florido, e substancial sem ser cru. Uma pessoa que as lê; se sabe apreciar seu sabor, se o faz três vezes por semana, esquece de seus cansaços; se o faz cem vezes, nunca se satisfaz e deseja ler mais. Se um bom escritor de história não merece ser chamado de sábio, então, que título devemos lhe dar?

[...]

Em geral, há quatro formas de narrativa: há aquelas em que registramos diretamente as habilidades e o caráter de uma pessoa; há aquelas que só descrevem eventos de sua vida; há aquelas no qual tudo é revelado pelos diálogos; e há aquela, finalmente, em que tudo é revelado pelos comentários do historiador.

Como por exemplo, no Tratado dos Livros, a virtude do soberano Yao é louvada com a seguinte frase: “sincero e cortês, e sustentando uma grande modéstia”, ou como no comentário das Primaveras e Outonos sobre a aparência de Zu taishu, descrito como “bonito e acessível”; como havíamos dito, estas frases não necessitam de qualquer explicação: por isso, elas representam o que chamamos de “habilidades e caráter de uma pessoa”.

Temos o caso de uma passagem nos Comentários de Zuo sobre Shen Neng, que foi traído, e pereceu por conta de uma intriga de sua madrasta Liji; na história de Bangu, Qixin assumiu o lugar de seu soberano, expôs-se ao perigo e morreu quando estava cercado pelos Xiang. Aqui, os historiadores não falaram de seus caracteres morais, mas sua lealdade e devoção filial são aparentes; isso é que o chamamos de “descrever os eventos da vida de uma pessoa”.

Novamente, temos um caso no Tratado dos Livros em que o rei Wu, o último soberano de Shang, fez um juramento em que “queimaria e assaria o leal e o bom. E ele matou sua esposa grávida”; nos Comentários de Zuo, recorda-se a discussão de Sui Kuai sobre o estado de Chu, em que ele declara: “labutem nos carros de madeira e esfarrapem suas roupas para trazer abaixo as colinas e os campos que estão cultivados”. Aqui estão ausentes quaisquer comentários sobre o caráter ou habilidades dos personagens, contudo, as palavras chamam a atenção e o assunto foi exposto claramente. Isso se chama “o que é revelado pelos discursos”.

Por fim, na biografia de Weiching, o grande historiador Sima Qian disse que Suchien repreendeu uma vez seu general-chefe por não recomendar ou usar seus homens apropriadamente; no mesmo Livro de Han, há um elogio no término da biografia de Xiaowen, que diz; “quando o rei de Wu fingiu uma doença e não veio cortejar o imperador, este lhe concedeu um tamborzinho e uma baqueta”. Estas são informações retiradas de uma biografia ou de um anal, mas foram separadas pelos historiadores, e é isso que chamamos de “revelado pelos comentários do historiador”.

Assim, estes quatro tipos de narrativas – habilidades e caráter, atos e eventos, discursos ou comentários – não são mutuamente dependentes. Na verdade, se elas forem ajuntadas em uma única narrativa, serão muitas as informações e o desperdício será grande. Porém, ao longo dos clássicos e das histórias isso ocorreu muitas vezes. Talvez apenas um ou dois de mais de dez historiadores tenham obtido algum sucesso nesta questão.

Há duas regras para a economia de palavras na narração dos eventos; uma, cortando as orações, a segunda, utilizando menos palavras. (...) Cortar fora sentenças é fácil, mas cortar fora palavras é difícil. Somente quando uma pessoa penetra no sentido profundo da narrativa, ela pode falar sobre história. Se as orações forem supérfluas e as palavras repetitivas, isso dará origem a uma complexidade desnecessária e a uma escrita caótica. (...) na narração dos eventos, uma pessoa hábil em somar palavras desnecessárias, ou liberal com a descrição dos acontecimentos, só faz perder tempo com coisas irrelevantes. Mas se alguém busca extrair o essencial, ele sintetizará tudo numa frase ou sentença. (...) Somente assim podemos separar o supérfluo das narrativas, alcançando seu sentido profundo e central. Separando este escolho, as flores se vão, mas as frutas ficam; os restos serão limpos, o bagaço jogado fora e o sumo será degustado.

Ah! Mas quem dera pudéssemos suprimir o supérfluo, e ir mais profundamente até onde temos de ir! (...)



7.Sima Guang – Descontinuidades temporais.
O texto de Sima Guang critica a idéia de continuidade histórica, defendendo que as mudanças nos ciclos dinásticos podem ser dar por razões variadas, e não apenas somente pela teoria do Mandato celeste. Em suma, cada época deveria ser lida por meio de suas próprias fontes, e as generalizações, evitadas.

Apesar das distinções que podemos fazer no fato de que uma dinastia pode ser chinesa e outra estrangeira, uma humana e outra tirânica, de diferentes tamanhos ou poderes, isto é essencialmente o mesmo que acontece nos períodos de desunião dos estados desde os tempos antigos. Como podemos acreditar, assim, que um único estado pode ser considerado o sucessor legítimo, e colocar os outros como falsos ou usurpadores? Nós podemos considerar um estado o legítimo sucessor apenas por ter tirado o poder das mãos de seus predecessores? (...) Desde os tempos antigos as teorias sobre legitimação dinástica não passam de discursos lógicos que forçam os homens a aceitar sem questionar. Como legitimar a ascensão de Qin? (...) Senhor imperador, este humilde servo não pretende saber demasiadamente o que sejam as distinções de legitimação ou continuidade, mas entende que cada estado deve ser compreendido pelas suas próprias realizações. Zhou, Qin, Han, Jin, Sui e Tang fizeram cada um, ao seu modo, a unificação das nove províncias e transmitiram o trono aos seus descendentes. E estes descendentes, com o tempo, perderam seu poder e foram forçados a mover suas capitais, dando continuidade ao ciclo de seus ancestrais, mantendo uma linha de sucessão e esperando trazer novamente a restauração do poder. E foram esses governantes que combateram para manter-se no poder. Então, seu servo deve considerar estes soberanos como legítimos filhos do céu. Ora, todos os outros estados tinham aproximadamente o mesmo território, as mesmas virtudes, empregavam os mesmos títulos e distinguiam seus legisladores, e se formos tratá-los, deveríamos faze-lo de modo equivalente, tal como os antigos estados guerreiros, sem qualquer tipo de favoritismo. Mas este caminho, porém, é uma violência com os fatos e um desrespeito a verdade. Não obstante, é necessário, quando um império assume o poder, estabelecer algum tipo de cronologia para por em ordem a seqüência dos acontecimentos. Han passou o poder para Wei, que passou para Jin; Jin passou para Sung, este para Chen, e depois Sui o tomou para si; Tang venceu os últimos Liang, os últimos Zhou, os Sui, e foi vencido pelo agora Grande Song. Este procedimento é necessário para determinar o nome dos títulos reais destas dinastias, e colocar os eventos num arranjo cronológico que cubra todos estes estados. Este não é, contudo, o procedimento correto para um estado ser honrado e o outro depreciado, ou para determinar as distinções que legitimam ou intercalam as dinastias em questão.



8.Lu Tanglai – A compreensão da história.
Neste breve texto, Lu, um continuador da perspectiva crítica de Sima Guang, alerta sobre a necessidade de uma leitura crítica da história. Enganados pelas fontes, muitas vezes supomos que uma determinada situação ou contexto histórico devem ser aceitos de modo direto, sem uma apreciação mais profunda do texto. No entanto, o que garante que um texto histórico dá uma visão “verdadeira” da história? Os propósitos de um livro só poderiam ser descobertos por uma leitura consciente e crítica, o que consistiria o cerne do trabalho historiográfico.

Hu Qiuzi perguntou uma vez a Liezi porque ele gostava de viajar. Liezi respondeu: “as pessoas viajam para ver sempre as mesmas coisas; eu viajo para observar como as coisas mudam”. Esta é a regra para observar e compreender a história. Muitas pessoas, quando examinam a história, simplesmente olham os períodos de ordem e acham que estão em ordem; olham os períodos de desordem e acreditam que estão em desordem, observam um fato e não sabem mais do que este mesmo fato os diz. Mas isso é realmente apreciação histórica? Quem olha para os acontecimentos de hoje observa coisas favoráveis e perigosas, enxerga erros e acertos de todos os tempos. Abra, porém, um livro diante de si mesmo. Imagine diante de você milhares de coisas ocorrendo ao mesmo tempo, e você terá que decidir qual delas é a que melhor representa o contexto. Se você olha a história desse modo, seu conhecimento o favorece em sua inteligência a perspicácia. Este é realmente o melhor modo de ler a história.



9.Ma Duanlin – A história como metáfora da realidade.
Ma Duanlin deixa clara a idéia de que a história é uma literatura, uma metáfora da realidade. Mesmo sendo fruto de uma comparação exaustiva de fontes, ela se trataria, porém, de uma escolha de temas e de visões por parte do autor, e da sua capacidade em comprová-los.

O filósofo Xunzi disse, há muito tempo atrás: “se você observar o caminho dos antigos reis-sábios, você verá que ele é absolutamente óbvio, pois é o caminho dos últimos reis. O cavalheiro estuda o caminho dos últimos reis e, e com os discursos de cem reis de muito tempo atrás em suas mãos é fácil iniciar uma discussão”. Então, se formos estudar as instituições, examinar as leis e os estatutos, compreenderemos amplamente e entenderemos, assim, que na verdade estaremos buscando estudar os princípios confucionistas.

Após o tempo das Odes, das Histórias e das Primaveras e Outonos, somente Sima Qian pode ser chamado de “bom historiador”. Ele utilizou os anais e as memórias para descrever os períodos de ordem e desordem, a ascensão e queda dos estados, e os oito tratados relatam as matérias principais das leis e instituições. Muitos tentaram depois empunhar o pincel e escrever nas tábuas, mas nenhum alcançou tal nível. Mas, desde o tempo de Bangu e depois, as histórias só cobrem uma dinastia, muito serve apenas a distração dos leitores, e o princípio de continuidade e desenvolvimento foi perdido. Finalmente, porém, Sima Guang escreveu seu Espelho do Governo, cobrindo quase 1300 anos de acontecimentos, selecionando as narrativas de mais de setenta histórias separadas, e as pôs assim na forma de uma obra só. Letrados posteriores que leram suas páginas encontraram coisas do passado e do presente nela. Mas Sima Guang era muito detalhista em seus temas de ordem e desordem, de ascensão e queda de dinastias, e seu tratamento para as leis e instituições era bem delineado. Isso não se deve a nenhuma falta de conhecimento de sua parte, mas a grande quantidade de material que tinha a sua disposição, o que o forçou a focar sua narrativa em determinados eventos, negligenciando outros.

Esta é minha consideração sobre os períodos de ordem e desordem, na ascensão e queda de diferentes dinastias, que não estão relacionados. O caminho de Qin para o poder, por exemplo, não foi o mesmo de Han, e a queda de Sui é diferente da queda de Tang. Cada período tem sua história, e ela é suficiente somente para cobrir o período de uma dinastia, mas não para correlacioná-la com as outras. (...) Então, para entender as razões do gradual crescimento e a relativa importância das instituições em cada período, devemos realizar um estudo comparativo e compreensivo dos começos e fins, para entender seu desenvolvimento, no que encontraremos sérias dificuldades. A história política não depende, para sua continuidade, ser necessariamente coberta, de modo amplo, como no livro de Sima Guang, mas não é possível fazê-la entendendo que as instituições passam obrigatoriamente por uma continuidade histórica. Mas não é exatamente isso que os letrados de hoje deveriam prestar atenção?



10.Kang Youwei – uma teoria sobre o futuro da história.
Kang Youwei foi o autor de uma inovadora teoria histórica, baseada numa leitura do ancestral texto das Primaveras e Outonos. Concebendo um sistema de evolução das sociedades, Kang acreditava que o mundo do futuro haveria de se integrar numa grande comunidade, baseadas em princípios humanísticos. Depois de duas guerras fratricidas e mais um período de conflitos velados, seria possível acreditar na validade de sua proposta para o mundo de hoje?

O significado das “Primaveras e Outonos” consiste na evolução de três eras: a era da desordem, a era da ordem e a era da grande paz. O caminho de Confúcio abarca as três seqüências e estas três eras. As três seqüências são usadas para ilustrar as três eras, e como isso pode ser estendido por cem gerações. O tempo dos Xia, dos Shang e dos Zhou representa a sucessão das três seqüências, na qual podemos observar suas mudanças e acréscimos. Pela observação da mudança destes tempos, podemos saber como as mudanças operarão nas cem gerações seguintes. Como muitas das coisas foram feitas para o povo no passado, os reis seguintes não podem governar da mesma maneira que a dinastia anterior; alguns dos defeitos existentes no sistema anterior se desenvolvem e persistem, e cada dinastia tem, então, que efetuar as modificações necessárias para expurgar os erros antigos e criar um sistema novo. O curso da humanidade progride de acordo com esta seqüência fixa. Aqueles que um dia foram clãs, depois tribos, transformaram-se em nações. E das nações nasceu, então, a grande unidade. Do mesmo modo, antigamente, surgiram os indivíduos que se tornaram chefes tribais; depois, gradualmente se estabeleceram as regras pelas quais estes podiam governar seu povo; ou seja, da autocracia se evolui para o constitucionalismo; depois, do constitucionalismo se evolui para o republicanismo. Do mesmo modo, as relações entre marido e esposa, e entre pai e filho foram gradualmente reguladas e definidas. Quando elas estão presentes, as pessoas cuidam com cuidado e amor de sua sociedade, e voltam gradualmente para o que se chama grande unidade. O reverso disso conduz as pessoas ao individualismo egoísta e a desordem.

Se há então a evolução da desordem para ordem, evoluiremos da ordem para a grande paz. A evolução acontecerá gradualmente, e as mudanças têm suas origens definidas. (...) quando Confúcio redigiu as Primaveras e Outonos, ele analisou a três eras. Durante a era da desordem, ele considerou o seu Estado como centro, e os outros estados feudais como estrangeiros. Na era da ordem ele considerou a China como o centro, e os bárbaros de fora como estando fora do sistema. Na era da grande paz, tudo e todos serão considerados parte do sistema; quem está longe ou perto, grande ou pequeno, todos serão um. Assim se pode aplicar o principio da evolução.

Confúcio nasceu na época da desordem. Agora, as comunicações se estendem através do mundo todo, da Europa a América, e o mundo se envolve na era da grande ordem. Irá chegar o dia quando em toda terra, o pequeno e o grande, o perto e o longe, serão apenas um. Não existirão mais nações, distinções raciais, e os costumes serão sempre os mesmos. Esta uniformidade é a era da grande paz. Confúcio sabia de tudo isso com antecedência.

FILOSOFIA

Talvez a parte mais rica da literatura antiga chinesa seja aquela relativa as “jia” – escolas – que compunham o panorama intelectual chinês, e quem tem o seu gênese numa época imemorial. O costume de se afirmar que as origens do pensamento chinês situam-se na época dos Estados Combatentes (-481-221) é de certa maneira incorreta; o que este período vê é o surgimento do pensamento ético, e a divisão entre linhas de pensamento baseadas numa interpretação alternativa do conceito de Dao (caminho, via). Antes destes pensadores, a civilização chinesa já desenvolvia uma série de concepções intelectuais cujos autores desconhecemos hoje, mas que foram amplamente debatidas pelos antigos. A época Han (-206 +221) experimenta a síntese de algumas dessas linhas, como na figura de Dong Zhongshu, mas o pensamento chinês, enquanto bloco, fragmenta-se em processos diferentes de continuação. O daoísmo, por exemplo, tenderia a uma particularização de seus aspectos religiosos (ver Religião), conquanto o confucionismo seria debatido como doutrina de Estado até recentemente. Uma apresentação destas escolas, portanto, seria bastante extensiva, e nos centraremos em apresentar, pois, suas propostas o que poderia ser entendido como o Dao. De início, apresentaremos um texto do Tratado das Mutações (Yijing), em que se preservaram antigas concepções cosmológicas chinesas; do mesmo modo, um texto do Tratado dos Livros (Shujing) nos concede um olhar geral sobre a antiga sistematização das forças naturais. Confúcio (-551 - 479), o primeiro dos sábios conhecidos nos tempos clássicos, privilegiaria uma proposta baseada na tradição e na educação; Mozi (séc -4), um antagonista do confucionismo, defenderia a destruição da cultura clássica e uma espécie de comunismo primitivo; Laozi (sécs. -6 -5?), o mítico fundados do daoísmo, afirmava que o Dao era uma via de auto-conhecimento, hermética, somente acessível pelo desprendimento do mundo materialista; os legistas, representados por Shang Yang (séc. -4) defendiam seu ponto de vista baseado numa unificação do poder e dos costumes pela lei e pela força. Estes pensadores antigos seriam pesados por Sima Tan (séc. -2), pai do historiador Sima Qian (curiosamente, seu texto dá um parecer favorável aos daoístas, conquanto seu filho tornar-se-ia um ardoroso defensor de Confúcio); Dong Zhongshu (séc. -2) inaugura a fusão entre o ser humano confucionista e a escola cosmológica dos cinco agentes, determinado uma interpretação nova para a ética, política e mesmo para medicina; e Wang Chong (+ 27 + 91) criaria as bases do ceticismo chinês. Este longo processo seria adicionado pela presença do budismo, inicialmente recebido como uma escola de pensamento, como veremos no texto atribuído a Bodhidharma (séc. 5), mítico patrono do budismo chinês; Hanyu (768 + 824), dos Tang, realiza uma comparação entre confucionismo, daoísmo e budismo, e conclui pela primazia da razão letrada; este ponto de vista seria referendado pela tradição criada por Zhuxi (1130 +1200), o grande reformador do confucionismo e estruturador de uma cosmologia definitiva no pensamento chinês, a concepção do Taiji (o Máximo Supremo); e por Wang Fuzhi (1619 + 1692), um confucionista materialista e crítico, disposto a retomar a consciência ética de sua época. Estes movimentos seriam engolidos pelas crises da modernidade na China, e o paradigma comunista chinês proposto por Maozedong, no seu texto sobre a contradição, dão um exemplo perfeito e acabado da síntese entre o pensamento marxista ocidental e as teorias dialéticas de yin-yang propostas pelo classicismo chinês.



11.Yijing – o poder de domar do pequeno.
O Poder de Domar do Pequeno é um dos hexagramas mais interessantes do Yijing. Representa a possibilidade de submissão do forte pelo mais fraco, por meio da brandura e da devoção sincera. Tal atributo era valorizado por sábios e considerado uma virtude quando presente em um imperador. No seguir, o comentário de cada uma das linhas, feito por Confúcio, dá o caráter oracular do texto.



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XIAO CHU - O poder de cativar do pequeno
A imagem do Vento, o Suave (Sun, em cima), soprando pelo Céu (Tian, embaixo), sugere a pequena força cativando a grande. Uma pessoa forte é impedida por entraves pequenos, forçando-a a um compromisso. Um novo empreendimento pode assim ser restringido. Só pela suavidade uma tal situação poderá ter sucesso.

O Julgamento
O Poder de Cativar do Pequeno: sucesso. Do oeste, nuvens espessas, mas não há chuva. A perspectiva da chuva sugere um resultado frutífero, mas as nuvens não a liberam. Só pelo "poder do pequeno" - amizade e métodos sutis - podemos influenciar aos outros, ou aos acontecimentos.

A Imagem
O Vento soprando pelo Céu simboliza o Poder de Cativar do Pequeno. Assim o homem superior refina seu caráter e capacidades. Soprada pelas forças das circunstâncias, uma pessoa pode fazer pouco de significado duradouro, mas as condições permitem que nos expressemos abertamente em coisas pequenas, para os que nos cercam. É preciso usar o tempo para um auto-aperfeiçoamento.

As Linhas
Nove no fundo: retorno ao caminho reto. Sem desonra, fortuna: Não se deve usar a força, mas retornar à posição e atitude anteriores para esperar por tempos mais favoráveis. Agir de maneira simples e em harmonia com a natureza dos tempos traz a fortuna. Quem procurar um nicho, vai encontrá-lo.

Nove no segundo lugar: ele se deixa voltar ao caminho reto. Fortuna: Ao avançar, encontra-se só. Junte-se a outros, que estão tomando um rumo diferente. Assim é que se atingem objetivos. Promoções à frente.

Nove no terceiro lugar: as rodas da carroça se quebram. Marido e mulher brigam: Inconsciente dos problemas que se avultam, procura-se avançar a qualquer custo, mas a situação não é de molde a tolerar movimento, e há uma súbita disrupção. Mesmo a simpatia dos amigos pode ser perdida e vê-lo-ão como inconveniente e rude.

Seis no quarto lugar: pela sinceridade, o derramamento de sangue é evitado. As ansiedades se desvanecem. Sem desonra: A despeito das tendências prevalentes, você está perto do foco dos acontecimentos e tem alguma influência. É preciso considerar a verdade nua e crua, e então tomar uma ação eficaz. Se for sensível e honesto, poderá remendar a situação e mesmo marcar um pequeno tento.

Nove no quinto lugar: se ele for sincero e leal em seus relacionamentos, compartilhar da riqueza de seu próximo: O comprometimento com as causas baseadas em simpatia comum e necessidades comuns. A cooperação não-egoísta com os outros é frutífera. A promoção e o reconhecimento são prováveis.

Nove no alto: a chuva já caiu. Vem a paz: pode-se descansar, seguro em sua virtude. Continuar como uma mulher traz o perigo. A Lua está quase cheia. Se o homem nobre continua a avançar, o infortúnio: As condições negativas já passaram. Mas não é tempo para complacências, pois logo a Lua entrará em minguante. Analogamente a eficácia dos princípios suaves, "femininos", começa a diminuir, e os elementos hostis persistem. Não tente medidas enérgicas. Mantenha uma atitude impassível, e espere.



12.Shujing – o “Grande Plano”.
No Hongfan, ou O grande plano, aparece a primeira menção sistemática do sistema de arquitetura cosmológica baseados no ciclo wuxing (cinco agentes), que complementaria o sistema yin-yang presente no Yijing. Observe-se que, já neste momento, a vida natural e humana se encontra a articulada a esta noção.

No décimo terceiro ano o rei foi ao encontro do conde de Qi e disse: “O conde de Qi, o Céu, trabalhando de modo invisível, assegura a tranqüilidade das pessoas mais humildes ajudando-as a conformar-se à sua condição. Não sei como os princípios invariáveis do seu método, ao assim agir, poderiam ser expostos na devida ordem”.

O conde de Qi replicou: “Ouvi que na Antigüidade Guan represou as águas que inundavam a terra e com isso desorganizou a distribuição dos cinco elementos. Shang Di encolerizou-se, em conseqüência, e não lhe deu o Grande Plano com suas nove divisões e assim se permitiu que fossem destruídos os princípios invariáveis do método celestial. Guan foi conservado prisioneiro até a morte, e seu filho Yu ascendeu ao trono e tentou a mesma empresa. O Céu deu-lhe o Grande Plano com as nove divisões e os princípios invariáveis do seu método foram expostos na devida ordem”.

“Dessas divisões, a primeira é chamada “cinco elementos”; a segunda “atenção reverente para com as cinco coisas pessoais”; a terceira, “fervorosa devoção para com os oito objetos do governo”; a quarta, “uso harmonioso dos cinco divisores do tempo”; a quinta, “estabelecimento e uso da perfeição real”, a sexta. “uso discernido das três virtudes”; a sétima, “uso inteligente dos meios para exame das dúvidas”; a oitava, “uso meditado das diversas verificações”; a nona, “uso exortatório das cinco fontes de felicidade e uso temeroso das seis oportunidades de sofrimento”.

“Primeiro: dos cinco elementos, o primeiro é a água; o segundo é o fogo; e o terceiro a madeira; o quarto o metal; o quinto é a terra. A natureza da água consiste em molhar e descer. A do fogo, em arder e subir. A da madeira, em curvar-se a alinhar-se. A do metal, em amolecer e mudar. A da terra, em receber as sementes e produzir a colheita. O que molha e desce se converte em sal. O que arde e sobe se converte em amargo. O que se curva e se alinha se converte em ácido. O que amolece e muda se converte em acre. E da semeadura e colheita procede a doçura”.

“Segundo: das cinco coisas pessoais, a primeira é o porte corporal; a segunda a linguagem; a terceira, a vista; a quarta, ouvido; a quinta, o pensamento. A virtude do pobre corporal é a conduta respeitosa. A da linguagem, sua concordância com a razão. A da vista a claridade. A do ouvido, a diferenciação. A do pensamento, a perspicácia. A conduta respeitosa manifesta-se na gravidade. A concordância com a razão, na ordem. A claridade, no entendimento. A diferenciação, na deliberação. A perspicácia, na sabedoria”.

“Terceiro: dos oito objetos do governo, o primeiro é o alimento, o segundo a riqueza e os artigos do uso, o terceiro os sacrifícios, o quarto as tarefas do Ministro de Obras Públicas, o quinto as do Ministro da Instrução, o sexto as do Ministro da Justiça, o sétimo as cerimônias que devem ser tributadas aos hóspedes, o oitavo o exército”.

“Quarto: dos divisores do tempo, o primeiro é o ano do planeta Júpiter, o segundo a Lua, o terceiro o Sol, o quarto as estrelas e os planetas e espaços zodiacais, o quinto os cálculos do calendário”.



13.Confúcio – Sabedoria é educação.
Neste texto, presente no livro A Justa Medida (Zhong Yong), Zisi, neto de Confúcio, sintetiza o caminho proposto pelo avô, que se basearia na realização por meio da educação – único meio humano de alcançar a harmonia com a natureza e a sociedade.

Aquilo que o céu outorgou se chama Natureza. A harmonia com essa natureza chama-se Caminho do Dever. A ordenação desse caminho chama-se Instrução. Nem por um instante se pode abandonar o caminho. Se pudesse ser abandonado, não seria o caminho. A esse respeito, o homem superior, para ser prudente, não espera até ver as coisas; nem para ser apreensivo espera até ouvir as coisas. Nada há mais visível do que o secreto. Nada mais manifesto do que o minúsculo. Portanto, o homem superior cuida de si mesmo quando está sozinho.

Quando não há agitações de prazer, de cólera, de pesar ou de alegria, pode-se dizer que a mente se encontra em estado de Equilíbrio. Quando esses sentimentos se agitam e atuam em seu devido grau, produz-se o que se pode chamar estado de Harmonia. Esse Equilíbrio é a grande base da qual procedem todos os atos humanos no mundo e essa Harmonia é o caminho universal que todos eles devem seguir. Se existem em sua perfeição esses estados de equilíbrio e da harmonia, prevalecerá uma ordem feliz no Céu e na Terra e todas as coisas serão estimuladas e florescerão.

“Que o homem superior atenha-se ao sistema do Meio, deve-se ao fato de ser um homem superior e assim manter sempre o Meio. Que o homem inferior atue contra o sistema do Meio, deve-se ao fato de ser ele um homem inferior e não ter cautela”. Disse o Mestre: “Perfeita é a virtude que está de acordo com o Meio. Entre o povo, raros foram aqueles que puderam praticá-la!"

[...]

Como é grande o caminho do sábio! Como a água que derrama, produz e nutre todas as coisas e se eleva à altura do céu. A grandeza completa! Abrange as trezentas regras de cerimônia e as três mil regras da conduta. Espera o homem adequado, e logo é encontrada. Por isso se disse: “Só pela virtude perfeita pode converter-se em realidade o perfeito caminho, em todas as suas direções”. Portanto, o homem superior honra sua natureza virtuosa e investiga e estuda constantemente, procurando levá-la à sua amplitude e grandeza, para não omitir nenhum dos pontos mais estranhos e diminutos que ela abrange, e elevá-la à maior altura e brilho, a fim de seguir o caminho do Meio. Utiliza seus antigos conhecimentos e continuamente adquire outros novos. Exerce honesta e generosa seriedade na avaliação e prática de toda regra social.

[...]

Unicamente aquele que possui todas as qualidades sábias que possam existir sob o Céu mostra-se rápido na compreensão, claro no discernimento, de inteligência ampla, com um conhecimento que tudo abrange, dotado para exercer o governo, magnânimo, generoso, benigno e humilde, dotado para exercer a indulgência, impulsivo, enérgico, firme e constante, capaz de manter uma influência firme, apto, grave, nunca desviado do meio e correto, digno de veneração, culto, distinto, concentrado, investigador, capaz de exercer o discernimento. Tudo abarca e é amplo, profundo e ativo como uma fonte e mostra suas virtudes em tempo oportuno. Tudo abarca e é amplo como o céu. Profundo e ativo como a fonte, parece-se com o abismo. É visto, e todo o povo o venera. Fala, e todo o povo acredita. Age, e todo o povo o apóia.



14. Mozi – Contra a cultura.
A teoria moísta, grande rival da escola dos letrados, constitui-se numa espécie de socialismo camponês, que desprezava a cultura de elite, privilegiava a supressão do Estado e valorizava uma harmonia pautada na simplicidade, na vida comunitária do campo e num certo desprendimento material. No entanto, eram extremamente devotos a concepção de um Céu protetor, demonstrando que compartilhavam da idéia de uma harmonia cósmica com a natureza.

Ora, que é que o Céu preza e que é que o Céu abomina? Indubitavelmente, o Céu deseja que os homens se amem e auxiliem mutuamente, e reprova que se odeiem e hostilizem. Como chegamos a esta conclusão? Simplesmente porque o Céu ama e favorece toda a humanidade. E como sabemos que o Céu ama e favorece a humanidade inteira? Porque o céu protege a todos, e de todos aceita oferendas. Todos os países do mundo, grandes ou pequenos, são cidades do Céu; todos os homens, velhos ou moços, fidalgos ou humildes, são súditos celestes; em verdade, todos eles apascentam bois e ovelhas, alimentam cães e porcos e preparam vinho e bolos para sacrificá-los ao Céu. Acaso não significa isto que o Céu protege a todos e de todos aceita oferendas? Desde que é assim, como não deveríamos pensar que o Céu deseja que os homens se amem e auxiliem mutuamente? Logo, o Céu abençoará os que procederem de acordo com esse preceito, e amaldiçoará os que odeiam e prejudicam o próximo, pois foi dito que "a adversidade há de ferir o assassino do inocente". Como explicaríamos de outro modo o fato de recair sobre os criminosos a maldição celeste? Logo, o Céu deseja o amor do próximo e detesta o ódio ao próximo.

[...]

E agora, que é o que o céu preza e que é que o Céu abomina? O Céu deseja a justiça e detesta a injustiça... Como podemos saber que o Céu abomina a injustiça e preza o direito? Porque o mundo vive com o direito e, sem ele, perece; pelo direito, o mundo enriquece; empobrecerá, se ele faltar; o direito gera a ordem; a injustiça origina o caos. O Céu quer que o mundo viva, e detesta vê-lo perecer; quer vê-lo rico e não pobre; deseja a ordem e condena a confusão. Eis como sabemos que o Céu preza o direito e abomina a injustiça.

Como podemos saber que o Céu ama os homens? Porque os ensina a todos. Como sabemos que os ensina? Porque os defende a todos. Como sabemos que os defende a todos? Porque aceita sacrifícios de todos. Como sabemos que aceita sacrifícios de todos? Porque, na extensão dos quatro mares, todos os homens alimentam com ervas, bois e carneiros, dão cereais aos cães e porcos e preparam bolos e vinhos para ofertá-los a Deus, nas alturas e aos espíritos. Por que todos se queixam de que o Céu não lhe tem amor? Como já disse, o assassínio de um inocente acarreta uma calamidade. Quem é o assassino de um inocente? É um homem. Quem envia o castigo? O Céu. Se o Céu não prezasse os homens, por que puniria a morte de um deles? Logo, sei que o Céu ama os homens. Obedecer ao poder celeste é aceitar a justiça como padrão. Opor-se ao poder celeste é tomar por norma a força.



15. Laozi – a via é o desprendimento e a não-ação.
Laozi seria o mestre fundador da escola do Dao (caminho), que propunha uma integração absoluta com a natureza como única forma de resolver os desequilíbrios provocados pela vida social e cultural. Adepto de uma perspectiva individualista e transcendental, Laozi promoveu a concepção de que o Dao é, em si, o próprio cosmos, e o método para alcançá-lo é simplesmente deixar-se levar e não-agir (wuwei). Nestes dois fragmentos, Laozi propõe a impossibilidade de alcançar a via por meios racionais; depois, alude brevemente no que consiste a “não ação”.

O Dao
O caminho que não pode ser seguido não é o Caminho Perfeito.
O nome que não pode ser dito não é o Nome eterno.
No princípio está o que não tem nome.
O que tem nome é a Mãe de todas as coisas.
Para que possamos observar os seus segredos
devemos permanecer sem desejos.
Mas se em nós mora o desejo, a única coisa que
podemos contemplar
é a sua forma externa.
A casca que a essência oculta.
Esses dois estados existem para sempre inseparáveis.
Diferentes unicamente em nome.
Conjuntamente idênticos, unidos, integrados.
São chamados os mistérios!
Mistérios além dos mistérios.
O Portal que conduz a tudo aquilo que é sutil e maravilhoso,
ao recôndito segredo de todas as essências!

Encontro de Opostos
Todos no mundo reconhecem o belo como Belo e,
desta forma, sabem o que é o Feio.
Todos no mundo reconhecem o bem como o Bem e,
desta forma, sabem o que é o Mal.
Assim o ser e o não-ser geram-se mutuamente
O longo e o curto se delimitam. O alto e o baixo se
inclinam.
O tom e o som se harmonizam. O antes e o depois
seguem-se um ao outro.
Assim o sábio executa suas tarefas sem agir e transmite
ensinamentos sem usar palavras.
Todas as coisas agem, e ele não lhes nega auxílio.
Produz sem apropriar-se de coisa alguma.
Realiza sua tarefa e não pede gratidão.
E é justamente porque não se apega que o mérito
jamais o abandona e suas obras meritórias subsistem.



16.Legistas – Shang Yang e a criação dos padrões corretos.
A teoria legista insistiu, desde o início, na questão de que as leis seriam a via (Dao). Todas as outras discussões se remetiam a necessidade do ser humano buscá-la; a teoria legista imaginava poder impor uma interpretação do caminho a todos, sob forma de lei. No texto a seguir, de Shang Yang, fica bem clara a delimitação desta proposta, que iria influenciar os legistas posteriores.

A sofística e a sagacidade constituem um apoio à ilegalidade; os festejos e a música são sinais de desregramento e libertinagem; a simpatia e a benevolência constituem a mãe adotiva das transgressões; o emprego e a promoção representam oportunidades para a crueldade dos malfeitores. Se a ilegalidade é incentivada, toma-se dominante; se existem sinais de desregramento e libertinagem, tornar-se-ão prática corrente; se existir uma mãe adotiva para as transgressões, estas despertarão; se existirem oportunidades para a crueldade dos malfeitores, esta nunca tem um fim. Caso estes oito fatores se manifestem conjuntamente, o povo será mais forte do que o governo; mas se forem inexistentes num estado, o governo será mais forte do que o povo. Se este é mais forte do que o governo, o estado será fraco; se o governo é mais forte do que o povo, o exército é mais forte. Pois se existirem estes oito elementos, o governante não poderá utilizar ninguém na defesa e na guerra, o que resultará no desmembramento e ruína do estado; mas se estes elementos não existirem, o governante possuirá os recursos para a defesa e guerra, o que resultará no desenvolvimento do estado e na conquista da supremacia.

Se forem empregados funcionários virtuosos, as pessoas adorarão os respectivos familiares, mas se forem empregados funcionários cruéis, o povo adorará os estatutos. Concordar com, e responder aos apelos dos outros é tarefa dos virtuosos; divergir de espiar os outros é tarefa dos malvados. Se os virtuosos forem colocados em posições de destaque, as transgressões permanecerão ocultas; porém, se forem colocados os cruéis, os crimes serão punidos. No primeiro caso, as pessoas serão mais fortes do que a lei; no último, a lei será mais forte do que as pessoas. Se as pessoas forem mais fortes do que a lei, manifestar-se-á ilegalidade no estado, mas se a lei é mais forte do que o povo, o exército será mais forte. Daí, afirmar-se: “Governar com boas pessoas conduz à ilegalidade e ao desmembramento; governar com pessoas malvadas conduz à ordem e ao poder”. Um país que ataca com aquilo que é difícil, ganhará dez passos por cada ação que empreender; um país que ataca com aquilo que é fácil perderá uma centena de homens por cada dez que o abandonarem. Um país que preza a força é definido como capaz de atacar com aquilo que é difícil; um país que preza as palavras é definido como capaz de atacar com o que é fácil. As pessoas consideram fácil falar, mas difícil servir. Um estado em que, ao aplicar as leis do país, as condições para o povo são difíceis, mas facilitadas através do serviço militar, atacando com mais força, ganhará dez pontos por cada ação que empreender; porém, um estado em que, ao aplicar as leis do país, as condições para o povo são fáceis e se tomam difíceis através do serviço militar, atacando com as palavras, perderá uma centena de homens por cada dez que o abandonarem.

[...]

Um governo estável é alcançado num estado com base em três fatores. O primeiro é a lei, o segundo a boa fé e o terceiro os padrões corretos. A lei é exercida em comum pelo príncipe e respectivos ministros. A boa fé é estabelecida em comum pelo príncipe e respectivos ministros. O padrão correto é fixado apenas pelo príncipe. Se um governante de homens deixar de o cumprir, existe perigo; se o príncipe e os ministros negligenciam a lei e agem segundo os seus interesses pessoais, a desordem será o resultado inevitável. Por conseguinte, se a lei é estabelecida, os direitos e deveres esclarecidos e o interesse pessoal não prejudicam a lei, então existe um governo estável. Se a criação do padrão correto é decidida apenas pelo príncipe, existe prestigio. Se as pessoas têm fé nas recompensas, então as suas atividades alcançarão resultados; e se depositam fé nas penalidades, então a malvadez não terá sequer inicio. Somente um governante inteligente preza os padrões corretos e valoriza a boa fé, não prejudicando, assim, a lei em nome de interesses pessoais. Se proferir muitas palavras liberais, cortando, porém, as recompensas, os seus súditos não serão úteis; e se emitir ordens severas, umas atrás de outras, mas não aplicar as penalidades, as pessoas desprezarão a pena de morte.



17.Sima Tan – a discussão sobre as seis escolas.
Na “Discussão do essencial das seis escolas”, Sima Tan, pai do historiador Sima Qian, propunha uma avaliação comparativa das escolas de pensamento na época Han. Nesta época de sínteses, seu texto se trata de um dos primeiros balanços sobre a herança intelectual chinesa das eras antigas, dando uma certa preferência aos daoístas. Seu filho conservou o texto no Shiji, ainda que fosse um confucionista dedicado da linha sincrética de Dong Zhongshu.

O grande comentário do Tratado das Mutações diz: “há um que movimenta tudo, mas é dele que vêm todas as escolas e teorias. Elas têm o mesmo objetivo, mas seus caminhos são diferentes”. As escolas yin-yang, os confucionistas, os moistas, os lógicos, os legalistas e o daoístas, todos procuram por um bom governo. Elas são simples de seguir e ensinam caminhos diferentes, e algumas são mais acessíveis do que outras.

A escola yin-yang tem teorias que enfatizam demais as forças naturais, ensinando que as coisas estão além do homem. Isso faz com que as pessoas se sintam limitadas e medrosas. No entanto, seu trabalho arruma de modo correto a fundamental sucessão das quatro estações, e preenche uma necessidade essencial de ordem.

Os confucionistas são muito vastos em seus interesses, mas não se ligam ao que é essencial. Eles trabalham e estudam demais para conseguirem sucessos pequenos, sua disciplina é difícil de seguir e densa. Mas este é o caminho das regras de conduta entre senhor e servo, entre pai e filho, as distinções apropriadas entre marido e esposa, entre os anciãos e jovens, e das coisas que não podem ser alteradas.

Os moístas são radicais demais em sua parcimônia, e por isso seu caminho é difícil de ser seguido, assim como seus ensinamentos são difíceis de aplicar. Mas sua ênfase na agricultura e seus pontos de vista sobre frugalidade não podem ser desprezados.

Os legalistas são duros e intransigentes. Mas, eles definiram corretamente os direitos entre senhor e sujeito, entre superior e inferior, e estas distinções não podem ser mudadas.

Os lógicos são homens de causa, que gostam de extrapolar a razão e perder a verdade. Mas seu caminho distingue claramente as diferenças entre os nomes e as realidades, e isso é uma coisa que as pessoas em geral não conseguem entender.

Os daoístas ensinam uma vida de concentração espiritual e o ato de se harmonizar coma natureza. Seus ensinamentos são auto-suficientes e abarcam todas as coisas. Seu método consiste em seguir a ordem das estações da escola yin-yang, em selecionar o que é bom do confucionismo e do moísmo, e em adotar os pontos de vista críticos dos lógicos e dos legalistas. Eles modificam suas considerações de acordo com a época, e respondem às transformações do mundo adaptando-se.

Ao estabelecer costumes e práticas, ou decidir sobre casos importantes, eles não fazem nada mais do que o apropriado ao tempo e ao lugar. Seus princípios são simples e fáceis de seguir; empreendem poucas coisas, mas conseguem bastante sucesso.



18.Dong Zhongshu – a fusão do confucionismo e da cosmologia.
Embora seja pouco conhecido no Ocidente, Dong Zhongshu é o mentor de uma revolução nas sínteses filosóficas da era Han. Seu trabalho consistiu em articular a teoria dos cinco agentes (wuxing) ao confucionismo, estabelecendo uma relação “eco-lógica” entre natureza, seres humanos e sabedoria. Tal como justifica a existência do poder real baseado nestes princípios, Dong lança as bases das correlações causais entre o corpo e os agentes, objetos que seriam plenamente empregados nas matérias médicas chinesas. Ao ler os trechos a seguir, perceberemos o eco de sua obra em várias das disciplinas chinesas que conhecemos atualmente. De modo impressionante, porém, seu texto – o “Gemas Luxuriantes das Primaveras e Outonos” (Chunqiu Fanlu) ainda não foi traduzido para idiomas ocidentais, exceto em trechos.

Juntos, os éteres (qi) do universo constituem uma unidade; divididos constituem Yin e Yang; divididos em quatro, constituem as quatro estações; (ainda mais) divididos, constituem os cinco elementos. Estes elementos representam movimento. O movimento deles não é idêntico. Por isso nós os chamamos os cinco motores (Wuxing). Esses motores constituem cinco poderes oficiantes. Cada um, por sua vez, dá origem ao seguinte e é submetido pelo que se lhe segue.

[...]

Tem o céu 5 forças, a saber: a madeira, o fogo, a terra, o metal e a água. A madeira é o primeiro, e a água o ultimo, com a terra no meio. Tal é sua seqüência ordenada pelo céu. A madeira dá origem ao fogo, o fogo dá origem a terra (cinzas), a terra dá origem ao metal, o metal dá origem a água, e a água dá origem a madeira. Tal é sua relação criadora. A madeira está à esquerda, o metal à direita, o fogo adiante, a água atrás, e a terra no centro. Esta é a ordem em que, como pais e filhos, recebem o ser e o transmitem em reciprocidade. Assim, a madeira o recebe da água, o fogo da madeira, a terra do fogo, o metal da terra, e a água do metal. Enquanto os transmissores todos são pais; enquanto receptores, todos são filhos. Confiar constantemente no próprio pai a fim de prover para o próprio filho é a via do céu.

Por conseguinte a madeira, enquanto árvore vivente, é alimentada pelo fogo (sol); o metal, uma vez morto, é sepultado pela água; o fogo se compraz na madeira, e a nutre por meio da energia yang (solar); a água vence ao metal (seu pai), mas o chora por meio da energia yin. A terra demonstra a máxima lealdade no serviço do céu. Assim, as 5 forças proporcionam uma norma de conduta para ministros leais e para filhos devotos de seus pais...

O sábio, compreendendo isso, incrementa o seu amor e diminuiu sua severidade, faz mais generoso seu auxilio aos vivos e mais respeitoso seu cumprimento dos ritos funerários pelos mortos, ajustando-se assim a norma estabelecida pelo céu.

Como filho, cuida piedosamente de seu pai, o mesmo que o fogo se compraz na madeira, e chora a seu pai, o mesmo que a água vence ao metal. Serve ao seu soberano como a terra reverencia ao céu. Assim, pode chamar-se um homem de força. Exatamente igual como cada uma das 5 forças mantém seu lugar próprio de acordo com sua ordem estabelecida, assim os funcionários públicos, em conformidade com as 5 forças, se esforçam ao máximo empregando suas faculdades em seus deveres respectivos.


[...]

Quando se verte água no solo, esta evita partes secas e procura as úmidas. Quando se põe fogo em um tronco, esse evita o molhado e queima as partes secas. Todas as coisas rechaçam o que é distinto e seguem o que é igual; por isso, quando dois qi são semelhantes, completam-se; quando são diferentes, repelem-se.

A prova disto é muito clara: afinar instrumentos musicais. A nota Kung ou a Shang tocadas no alaúde serão respondidas por notas Kung ou Shang de outros instrumentos de corda. Soam por si mesmas.

Do mesmo modo, as coisas bonitas chamam outras coisas da classe das bonitas, as repulsivas chama as repulsivas. Isto provém do modo complementar pelo qual respondem as coisas da mesma classe. As coisas chamam umas as outras, igual com igual, como um dragão que traz a chuva, um leque abana o calor, ou um lugar onde haja passado um exército estará cheio de fogueiras. As coisas, bonitas ou feias, tem todas a sua origem. Se crermos que constroem o destino, é porque nada conhecemos de sua origem. Não há nenhum sucesso que não dependa, em seu início, de algo anterior, a que responde porque pertence a sua mesma categoria, e por isso se move.

Como se disse, quando se toca a nota Kung, outras cordas reverberam por si mesmas em ressonância complementar; se tratam de coisas comparáveis, afetadas de acordo com a classe a que pertencem. São movidas por um som que não tem forma visível, e quando os homens não vêem a forma acompanhando o movimento e a ação, descrevem o fenômeno como um "soar espontâneo". E onde quer que haja uma reação mútua sem nada visível para explicá-lo, descrevem o fenômeno como "espontâneo". Cada coisa está ligada mutuamente a outras, e muda quando as outras mudam.



19.Wang Chong – sabedoria e ceticismo.
O panorama intelectual da época Han é fertilíssimo na definição de muitas questões importantes para o pensamento chinês posterior. Wang Chong foi um destes autores férteis, que lançou as bases de um ceticismo científico chinês. Seus textos, contidos numa coletânea chamada “Discursos críticos” (Luheng), abraçam uma gama variada de assuntos, todos eles permeados por uma crítica lógica e racionalista. Uma certa controvérsia existe entre alguns autores sobre a herança legada por Wang; conquanto se afirme usualmente que pouco de seu pensamento tenha sobrevivido depois de sua morte, uma apreciação mais profunda e atual demonstra que certas concepções científicas chinesas baseiam-se, ainda, em suas propostas de análise e no seu método rigoroso de dedução.

Para o homem comum, os sábios de antigamente podiam prever a boa ou a má sorte porque sabiam deduzir partindo de coisas insignificantes e prever o resultado final partindo do começo, iniciando por trivialidades do homem da rua para chegar a comentar, por analogia, os assuntos mais importantes da corte e por fim, penetrar nas coisas ocultas e invisíveis. Assim, ele podia escrutinar fenômenos diversos para prever e evitar as desgraças. Podia examinar o passado e supor o futuro. Os homens ditos videntes não devem sua capacidade a dotes excepcionais, mas sim a racionalização que efetuam baseando-se na classificação das coisas.

[...]

Todo argumento que vá contra os fatos e que careça de provas será incapaz de inspirar confiança nas pessoas, por mais eloqüente que seja sua expressão e por mais impressionante que pareça ser.

[...]

Não há mais clara demonstração da verdade de um fato que seus resultados e não há teoria mais sólida que aquela corroborada pelas provas.

[...]

Ao comentar algo, sem concentração, sem clareza, ou procedendo a avaliações baseadas em dados superficiais do que se viu ou ouviu, sem submeter a questão a uma análise da mente, significa simplesmente atuar sem base na reflexão. Comentar algo, apenas com base no que se vê ou ouve, leva inevitavelmente ao erro. Dar crédito ao erro e ao aparente é confundir o certo com o equivocado. Para avaliar corretamente as coisas, é necessário recorrer à reflexão, e não apenas às impressões causadas pelos olhos e ouvidos.



20. As vias no budismo chinês.
No texto a seguir, atribuído a Bodhidharma, que teria sido um dos introdutores do budismo na China e o primeiro patriarca Chan (Zen), explica-se as “Duas maneiras de se entrar no caminho” na visão desta doutrina, estabelecendo aí um diálogo com a terminologia chinesa já existente.


Há muitas maneiras de se entrar no Caminho, mas de uma maneira geral elas pertencem a apenas duas espécies. Uma é a Entrada Através da Razão e a outra é a Entrada Através da Conduta. "Entrada Através da Razão" é a compreensão do espírito do Budismo, conseguida com o auxílio do ensinamento das escrituras. Nós obtemos então uma profunda confiança na Verdadeira Natureza, que é a mesma em todos os seres viventes. O fato de ela não se mani¬festar é devido à poeira dos. objetos externos e aos falsos pensamentos. Quando um homem, abandonando o falso e se entregando ao verdadeiro, pratica a meditação, descobre que não há nem eu nem outro e que o vulgar e o sagrado são da mesma essência. Mantém ele então confiança inabalável nisso e jamais se desvia. Não se torna mais escravo de palavras, pois está em silenciosa identificação com a própria Razão e livre da discriminação conceitual; ele é sereno e não age. Eis a Entrada Através da Razão.

Por "Entrada Através da Conduta" nós entendemos as Quatro Condutas; nas quais todos os atos estão incluídos. Quais são as quatro? 1) Saber se afastar do ódio; 2) Ser obediente às condições; 3) Não desejar nada; 4) Estar em acordo com o Darma.

O que significa "saber se afastar do ódio"? Aquele que se disciplina no Caminho, ao se defrontar com condições adversas, deverá pensar da seguinte maneira: - "Durante incontáveis eras passadas eu me apeguei a detalhes insignificantes da vida, desprezando o essencial; vagueei pelas existências criando um sem-número de ocasiões para o ódio, a hostilidade e as más ações. Embora violações não estejam sendo cometidas presentemente, os frutos das más ações cometidas no passado estão amadurecendo agora. Nem deuses, nem homens poderiam me advertir do que se abate sobre mim. Deverei me submeter de boa vontade e pacientemente a todos os males que se abaterem sobre mim, sem jamais me lamentar. Os Sutras dizem que jamais devo me afligir por causa do .mal que se abate sobre mim. Por quê? Porque quando as coisas são vigiadas por uma inteligência superior, os fundamentos da causação são alcançados por ela.” Quando tais pensamentos despertarem num homem, ele estará de acordo com a Razão, porque ele faz o melhor dos usos do ódio, pondo-o a serviço de seu avanço pelo Caminho. Eis o que significa "saber se afastar do ódio".

Por "ser obediente às condições", entende-se o seguinte: não existe nenhum eu nos seres, que são produzidos por condições kármicas; a alegria ou o sofrimento que experimentamos advém de nossas ações prévias. Se obtemos fortuna, honra, etc., isso tudo é produto de nossas ações passadas que, em virtude da causação, afetam nossa vida presente. Quando a força dessas condições se esgota, os resultados que gozamos voltam para o nada; por que então haveríamos de nos alegrar com eles? Aceitemos ganhos e perdas como eles nos são apresentados pelas condições; a Mente sabe que nada cresce e nada diminui. O vento dos prazeres não nos abala, pois silenciosamente permanecemos em harmonia com o Caminho. Eis o que significa "ser obediente às condições".

"Não desejar nada" significa o seguinte: as pessoas do mundo, em eterna confusão, por toda parte permanecem apegadas a uma coisa ou outra; a isso nós chamamos desejo. O sábio, entretanto, compreende a verdade e não é como o ignorante. Sua mente descansa serenamente no não criado, enquanto seu corpo se move de acordo com as leis da causalidade. Todas as coisas são vazias e nada há de desejável a se procurar. Onde quer que se encontre o mérito da claridade, certamente se esconde o de mérito da escuridão. Este tríplice mundo em que permanecemos juntos por tão longo tempo é semelhante a uma casa em chamas; tudo o que tem corpo sofre e ninguém conhece a paz. Como o sábio está totalmente compenetrado dessa realidade, jamais se apega às coisas em mutação. Seus pensamentos estão aquietados; de jamais deseja nada. Diz um Sutra: - "Onde há desejo, só há sofrimento; onde não há desejo, há alegria." Assim compreendemos que "não desejar nada" é uma atitude que está de acordo com o Caminho. É por isso que se ensina que não se deve desejar nada.

“Estar de acordo com o Darma" significa que a Razão a que chamamos Darma é pura em sua essência e que essa Razão é o princípio da vacuidade em tudo o que é manifestado; está ela além da impureza e do apego; não há nem eu nem outro nela. Diz um Sutra: - "No Darma não há seres viventes, pois ele está livre da impureza dos seres viventes; não há eu no Darma, pois ele está livre da impureza do eu." Se um sábio compreende essa verdade, e confia nela, suas ações se tornarão "de acordo com o Darma".

Como na essência do Darma nada se deseja, o sábio está sempre pronto para praticar a Caridade sem lamentar seu corpo, sua vida ou sua propriedade; em sua mente não há má vontade. Como ele tem uma compreensão perfeita da natureza tríplice do Vazio, está além da parcialidade e do apego. É apenas movido pela necessidade de libertar os seres das impurezas que ele toma forma semelhante à deles; entretanto, ele não se apega à forma. Em suas vidas, essa é a fase de benefício próprio. Ele, porém, sabe também como beneficiar os outros e como glorificar a Via da Iluminação. O mesmo que se dá com a Caridade se dá também com as outras cinco virtudes. O sábio pratica as Seis Virtudes para afastar os pensamentos confusos e não há nele nenhuma consciência de recompensas que lhe possam caber em virtude de suas ações meritórias. A isto se chama "estar de acordo com o Darma".



21. Hanyu – uma comparação entre confucionismo, daoísmo e budismo.
Hanyu foi um dos mais prolixos pensadores da época Tang, e um dos poucos ativos defensores do confucionismo filosófico. Veremos na seção “Religião” seu memorial contra uma relíquia budista; neste momento, porém, Hanyu discute no que se constituía o Dao em sua visão, criticando daoístas e budistas por seus pontos de vista pouco atentos a realidade do mundo. Compare este trecho com o de Sima Tan, nesta mesma seção.

O amor que abarca a todo o mundo se chama humanismo. Uma conduta que se conforma as prescrições deve se chamar justiça. Se chama caminho a prática de ambos os preceitos. Se chama virtude o fato de bastar-se a si mesmo sem esperar nada de fora. Assim, o humanismo e a justiça são noções bem determinadas, apesar da via e da virtude dependerem das contingências. Por isso se distingue a via do sábio e a do vulgo, a virtude fasta e a nefasta.

Em outros tempos, Laozi tentou difamar o humanismo e a justiça, sem conseguir. Ele as considerava pouco importantes, devido ao seu estreito ponto de vista. (...) Laozi só viu o lado mesquinho da humanidade, bem como só se preocupou com os atos de injustiça; é normal, pois, que os considerasse pouco importantes. [...] Mas agora os daoistas e os budistas querem governar seus corações rechaçando as noções de pais, de família, e de universo. Anulam leis imutáveis estabelecidas pelo céu; seus filhos não respeitam os pais, os súditos não respeitam os senhores, o povo não cumpre seus deveres. [...] Os budistas seguem preceitos estrangeiros e bárbaros, e os elevam acima dos ensinamentos de nossos antigos mestres e reis; pouco falta para se converterem em bárbaros.

E quais eram os ensinamentos de nossos antigos reis? Que o amor que abarca o mundo todo se chama humanismo; que uma prescrição que segue o dever se chama justiça. O que se chama caminho é a prática destes preceitos; e a virtude é bastar-se a si mesmo sem necessidade de qualquer coisa de fora. (...) esta via é fácil de explicar e compreender, este ensinamento e fácil de por em prática. Se as pessoas o aplicam a si mesmas, tudo frutifica sem problemas; se as pessoas o colocam em seu coração, todos se tornam afáveis e serenos.



22. Zhuxi – o máximo supremo e a redenção de Confúcio.
O grande redentor do confucionismo na época Song foi Zhuxi. Isso não se deve a ausência de outros autores – muitos eram, inclusive, extremamente capazes – mas Zhuxi tinha uma capacidade de trabalho especial, uma coragem para afirmar seus pontos de vista e ainda, uma sutileza teórica envolvente e muito bem articulada. Zhuxi desmontou o confucionismo e o reconstruiu em novas bases, mas revelando e mantendo um princípio original que parecia perdido. Dando sentido a certas passagens obscuras ou mal resolvidas do confucionismo, ele pode fazer frente ao budismo e ao daoísmo, criando uma ortodoxia que se manteria ao longo dos séculos como referência obrigatória na Escola dos Letrados. Nos trechos a seguir, duas definições sucintas do que seria o Taiji – o máximo supremo – construção fundamental para explicar a originação de yin e yang dentro da cosmologia chinesa; depois, uma definição breve sobre o que consiste o caminho do estudo.


Taiji (Máximo Supremo) é o Li (Princípio) do Céu, da Terra e de todas as criaturas. Mas há um li para o céu, um li para a Terra, um li para todas as coisas, e por fim, um li em cada uma das coisas, dentro delas. Antes do Céu e da Terra, não havia ainda um li dessas coisas. Quando se produz o yang, só há esse li. Quando se produz o yin, ainda só há esse li.

[...]

Em termos de yang e yin, o yang dá o movimento (função) e yin dá a quietude (base). Mas sempre há alternância entre movimento e quietude, entre yang e yin, sem começo nem fim. Então, é impossível diferenciá-los. Vamos nos ater ao ponto inicial: antes do movimento há quietude, antes da função há base, antes da percepção há o silêncio; mas se antes de yang não há yin, ou se é preciso percepção para perceber o silêncio, ou o movimento para atingir a quietude...; o que deve, então, ser tomado como anterior e posterior? O que muda, hoje, é resultado das alternâncias anteriores, e isso não pode ser negligenciado.


[...]

Em minha avaliação pessoal, quando os homens santos e sábios dos tempos antigos ensinavam seus estudantes, não perseguiam outro objetivo que dar-lhes a conhecer os princípios fundamentais da justiça para que se dedicassem ao auto cultivo de sua personalidade e logo fizeram uso extensivo de seu exemplo aos demais; não queriam que os estudantes pusessem por escrito em artigos de linguagem culta o que haviam ditado somente para conseguir fama ou proveito pessoal [...] estudamos com o objetivo pessoal de conhecer as idéias dos homens santos e sábios e, através destas, chegarmos a conhecer as leis da natureza.



23. Wang Fuzhi – resgatando a via.
Wang Fuzhi (1619+1692) foi um confucionista de amplo espectro, e que acompanhou a invasão manchu e a difícil transição da dinastia Ming para o controle dos bárbaros, que fundariam a dinastia Qing (1644). Abordando aspectos diversos da história, da moral, da cosmologia e da ciência, Wang ajudou a estabelecer a última fase do confucionismo crítico e materialista, tentando dar-lhe um caráter social e resistente. No entanto, o que se veria depois seria o engessar da doutrina numa erudição arcaizante e reacionária, voltada ao sistema burocrático, e totalmente ao contrário do que a introspecção aventada por Wang propunha. Séculos depois, o efeito deste apagar de luzes se veria na incapacidade dos letrados reagirem a presença estrangeira, e somente no final do século 19 um renascimento – efêmero – de um confucionismo ativo seria visto.

Sem haver chegado à suma sabedoria, é impossível construir um juízo acertado, e estaremos sempre limitados a averiguar fenômenos aparentes, incapacitados de investigar e emitir juízos próprios.

Sem escrutinar a natureza das coisas, a função reflexiva da mente não pode surtir efeito adequado, e o resultado será vacilar ante as tentações mundanas e deslizar para um caminho vicioso. Deste modo, chegar à suma sabedoria e escrutinar a natureza são métodos mutuamente complementares, e é preciso dedicar energia simultaneamente para ambas.

[...]

O Mundo consiste de coisas concretas. O Caminho (Dao), é o Caminho das coisas concretas, e elas não podem ser assim chamadas se não estão no Caminho. As pessoas costumam pensar que, sem uma forma, algo não pode ser concreto. Contudo, o que não é concreto simplesmente não está no Caminho. O Sábio compreende isso melhor que os Educados, e estes sabem distinguir tais coisas melhor do que as pessoas comuns. No entanto, um homem ou mulher comuns podem fazer coisas que os sábios não conseguem. Uma pessoa pode ser ignorante do Caminho e segui-lo, mesmo sem saber o que é concreto, ou reconhecer tais diferenças. Poucos são capazes de compreender e afirmar que, sem o concreto, não há Caminho, mas essa é a verdade.

Nos tempos antigos de caos e desordem, não havia trono à que se curvar; nos tempos de Yao e Shun, não havia misericórdia para os que sofriam, nem punição para os maus soberanos. Durante Han e Tang, não existiam dinastias como as de hoje, e as de amanhã não serão iguais também. Antes dos arcos não havia flechas, e não existia arqueria; antes dos carros e cavalos, não existia a condução; antes dos sacrifícios de bois e vinho, de jade e seda, dos sinos, flautas e violas, não existiam nem ritos nem música. Assim, não há pai que não seja filho, nem irmão que seja mais velho sem um mais novo. Só existe as coisas em potencial.

Portanto, quando algo não se concretiza, não é de fato algo concreto, e esse não pode ser o Caminho. Essa é a verdade. [O Caminho é concreto], Apenas as pessoas ainda não entenderam isso. Os sábio de antigamente podiam administrar as coisas concretas, mas não conseguiam compreender esse Caminho. O Caminho significa [de fato] cuidar das coisas concretas. Quando se cumpre esse Caminho, se atinge a virtude. Quando o concreto está completo, nós chamamos isso de operação. Quando as coisas concretas operam dentro de suas funções, nós chamamos isso de transformação e combinação. Quando os efeitos aparecem [se manifestam], nós chamamos isso de realização.



24.Maozedong
Maozedong (ou Mao Tse Tung na grafia antiga, 18189+1976) não foi o único revolucionário comunista da China, mas com certeza foi o mais importante para o estabelecimento da revolução no país. Mao fez parte de uma geração disposta a romper com o passado e adotar algumas teorias ocidentais para reformar a China e tirá-la do caos histórico em que ela havia se instalado no início do século 20. A atração do comunismo era grande entre os intelectuais chineses da época; comunitário, igualitário, universalista, respeitador de culturas e diferenças étnicas, as teorias de Marx e Engels pareciam um caminho válido para fazer a China entrar na modernidade, já que as experiências com o capitalismo haviam sido péssimas. Contudo, a originalidade da proposta de Mao foi interpretar o marxismo à luz das condições econômicas e sociais da China, adaptando-o a sua realidade. Estas medidas garantiram a eficácia da revolução maoísta, calcada no apoio popular camponês. No trecho a seguir, Mao discute os aspectos da Contradição, realizando uma síntese curiosa (embora não declarada) entre a dialética marxista e o velho sistema de oposição complementar chinês, determinada pelo máximo supremo (Taiji); no final, apresentamos um trecho da polêmica convocação das “cem flores” - em 1957, Mao convocou os intelectuais chineses a estabelecerem um processo de debate interno sobre o governo, a sociedade e o país, visando (ou ao menos, este era o discurso) revelar, como na antiguidade, a diversidade de idéias. O resultado foi o mesmo da época Qin: o número crescente de críticas levou à uma perseguição e ao expurgo de quase todos aqueles que acreditaram em Mao e em sua proposta de renovação.

No estudo de uma questão, é preciso livrar-se do subjetivismo, de proceder a um exame unilateral e ser superficial. Ser subjetivo é não saber encarar uma questão objetivamente, isto é, de um ponto de vista materialista. Disso já falei em "Da prática". O exame unilateral consiste em não saber encarar as questões sob todos os aspectos, ou ainda, ver a parte e não o todo, ver as árvores e não a floresta. Se assim procedermos, e impossível encontrar o método de solucionar as contradições, impossível desempenhar as tarefas da revolução, impossível conduzir bem o trabalho a fazer, Impossível desenvolver corretamente a luta ideológica no Partido. Quando Sunzi, tratando da arte militar, dizia: "Conhece teu adversário e conhece-te a ti mesmo e poderás, sem perigo, travar cem batalhas", ele falava de duas partes beligerantes. Weizheng, sob a dinastia dos Tang, compreendia, também ele, o erro de um exame unilateral, quando dizia: "Quem ouve os dois lados, ficará esclarecido; quem não ouve senão um lado permanecerá nas trevas". Mas nossos camaradas, com freqüência, vêem os problemas de uma maneira unilateral e, daí, muita vez encontram obstáculos... Lênine disse: "Para conhecer realmente um objeto, é preciso abranger e estudar todos os seus aspectos, todas as ligações e "mediações". Jamais o conheceremos integralmente, mas a necessidade de considerá-lo sob todos os aspectos nos evita erros e embotamento". Devemos recordar estas palavras. Ser superficial é não levar em conta as particularidades da contradição em seu conjunto, nem das particularidades de cada um dos aspectos, negar a necessidade de penetrar no fundo das coisas e estudar minuciosamente as particularidades da contradição, contentar-se em olhar de longe e, após uma observação aproximada de alguns traços superficiais da contradição, tentar imediatamente resolvê-Ia (responder a uma pergunta decidir uma controvérsia, conduzir um caso, dirigir uma operação militar). Tal maneira de proceder causa sempre conseqüências desagradáveis... Encarar as coisas de uma maneira unilateral e superficial é ainda subjetivismo, porque, em seu ser objetivo, as coisas estão, de fato, ligadas umas as outras e possuem leis internas; ora, há pessoas que, em vez de refletir nas coisas como elas são, as consideram de uma maneira unilateral, ou superficial, sem conhecer suas ligações mútuas ou suas leis internas; este método é, portanto, subjetivo.

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A lei da contradição inerente às coisas e aos fenômenos, vale dizer, a lei da unidade dos contrários, é a lei fundamental da natureza e da sociedade e, portanto, a lei fundamental do pensamento. Ela é o oposto da concepção metafísica do mundo. Sua descoberta constituiu uma grande revolução na história do conhecimento humano. Segundo o ponto de vista do materialismo dialético, a contradição existe dentro de todos os processos que se desenrolam nas coisas e fenômenos objetivos e no pensamento subjetivo. Ela penetra todos os processos, do princípio ao fim: é aí que estão a universalidade e o caráter absoluto da contradição. Cada contradição e cada um de seus aspectos têm suas respectivas particulares; é aí que residem o caráter específico e o caráter relativo da contradição. Dentro de determinadas condições há identidade dos contrários. Estes podem, portanto, coexistir na unidade e se transformar um no outro; é nisso igualmente que residem o caráter específico e o caráter relativo da contradição. Entretanto, a luta dos contrários é ininterrupta, ela existiu tanto durante sua coexistência quanto no momento de sua conversão recíproca, onde se manifesta com uma evidência particular. É aí agora que residem a universalidade e o caráter absoluto da contradição. Quando estudarmos o caráter específico e o caráter relativo da contradição devemos prestar atenção na diferença entre a contradição principal e as contradições secundárias, entre o aspecto principal e o aspecto secundário da contradição. Quando estudarmos a universalidade da contradição e a luta dos contrários, devemos prestar atenção na diferença entre as formas variadas de luta, senão cometeremos erro. Se, com o término do nosso estudo, tivermos uma idéia clara dos pontos essenciais acima demonstrados, poderemos combater destruindo as concepções dogmáticas que transgridem os princípios fundamentais do marxismo-leninismo e que prejudicam nossa causa revolucionária, e nossos companheiros experimentados estarão em condições de erigir a experiência em princípios para evitar a repetição dos erros do empirismo. Tal é a breve conclusão à qual nos conduziu o estudo da lei da contradição.


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A política "Que cem flores desabrochem, que cem escolas rivalizem" visa a estimular o desenvolvimento da arte e o progresso da ciência, bem como o desabrochar da cultura socialista em nosso país. Nas artes, formas diferentes e estilos diferentes podem desenvolver-se livremente; nas Ciências, as escolas diferentes encarar-se-ão livremente. Seria, a nosso ver, prejudicial ao desenvolvimento da arte e da ciência recorrer às medidas administrativas para impor tal estilo ou tal escola e proibir esse outro estilo, essa outra escola. O verdadeiro e o falso em arte e ciência é uma questão que deve ser resolvido pêlo livre debate nos meios artísticos e científicos, pela prática da arte e da ciência e não por métodos simplistas.