ECONOMIA

O termo “economia” pode ser recente em chinês, mas a concepção de administração pública é tão antiga quanto a própria civilização. Os chineses sempre tiveram ciência de como a sociedade era sustentada, e q questão do trabalho, do valor e do comércio sempre foram de importância vital para o Estado. No primeiro texto, o que veremos é uma apresentação do sistema Fengjian – entendido muitas vezes no Ocidente como “Feudalismo” – que existiu durante a época Zhou (-1027 -221). Veremos como se dava a divisão das terras, bem como a distribuição dos títulos nobiliárquicos. Este texto do Liji bem se prestaria a seção Política, mas o colocamos aqui para entender como era articulada a produção agrícola e sua supervisão. Este sistema foi substituído pela nova administração imposta por Qin, no século -3, e doravante mantido (apesar das discussões, inócuas, que ocasionalmente surgiram para sua restauração). Mesmo assim, Mêncio (-372 -289), eminente confucionista, propunha uma revitalização do campo por meio de um sistema chamado “nove quadrados”. Shang Yang (séc.-4), da escola legista propunha, no entanto, a centralização das atividades agrícolas nas mãos do Estado. Guanzi (séc. - 6? - o texto, porém, é posterior, parecendo tratar-se do séc. -4), pensador que misturava tendências das duas escolas, defendia igualmente uma regulação dos mercados por parte das autoridades. Estes debates promoveram uma intensa preocupação entre os governos posteriores com as questões econômicas, transformando-as num problema institucional. O relatório de Sima Qian, presente no Shiji, demonstra o extenso controle sobre o desenvolvimento destas atividades. Do mesmo modo, os Debates sobre o Sal e o Ferro (Yantienlun, séc. -1) tratam, pela primeira vez, entre o conflito da livre iniciativa e do monopólio do Estado. Os anais destas discussões seriam referência até os tempos modernos para as questões econômicas, quando finalmente foram revistos pela ideologia comunista proposta por Maozedong. O comunismo chinês seria uma interpretação alternativa do marxismo, adaptado a realidade agrícola chinesa. O texto a seguir, que trata da política do “Grande salto adiante”, apresenta esta perspectiva de “aprendizado” do socialismo chinês. Um impulso à modernidade industrial seria dado pela política das quatro modernizações (indústria, agricultura, defesa e educação), necessárias para superação de uma série de desastres econômicos ocorridos nos fins dos anos 50 e inícios dos 60. Por fim, Deng Xiaoping (1903+1997) realiza uma grande reforma na economia chinesa, adequando-a as leis do mercado e propondo uma síntese inovadora de socialismo, globalização e desenvolvimento.



36. Liji; Fengjian, ou o Feudalismo chinês.
O sistema Fengjian, descrito no Liji, define as atribuições, poderes e o funcionamento da exploração da terra no antigo império, por meio da concessão de poder (vassálico e servil) entre nobres e camponeses. A semelhança de tal sistema com o seu congênere europeu foi a base de inúmeras teorias históricas e econômicas sobre a evolução das sociedades, sobre as quais anda pairam anacronismos ou utilizações indevidas. No texto a seguir, veremos como os estatutos reais dividem as concessões de terras e os títulos relativos a elas. Nesta época, o grau de nobreza correspondia diretamente a sua administração, bem como seu tamanho e ganho. O texto pode ser comparado ao de Sima Guang (na seção “Política”), mas decidi por inseri-lo aqui como forma de fazer compreender as semelhanças entre o dito “feudalismo chinês” e o europeu.

Os Reis estabeleceram os graus de Nobreza:

Duque, Marquês, Conde, Visconde, Barão: cinco categorias de Príncipes Feudais. Os Grandes Senhores de 1a. classe, ou Ministros de Estado, e os de 2a. classe; e os Fidalgos de 1a., 2a. e 3a. classe: cinco ordens.

O território do Mandatário de Deus ou Imperador estende-se por mil li (500mt) quadrados. Os de um Duque ou marquês, por cem li quadrados; os do Conde, por 70 li; os do Visconde e do Barão por 50 li. Quem não chega a 50 li, não está ligado ao Imperador. Depende de um Feudal e chama-se um Vassalo.

O território dos Duques Reais é como os dos Duques e Marqueses. Os Grandes Senhores ou Ministros Reais de 1a, são como Condes. Os de 2a. são como Viscondes e Barões. O Fidalgo-Mor do Imperador tem a categoria de Vassalo.

O estatuto agrário: Cem hectares (mu) repartem-se por agricultores superiores de 1a. que têm vencimento de 9 homens; os de 2a, que vencem por 8 homens; os de 3a. por 7; os de 4a. vencem por 6 homens. Agricultores inferiores vencem por 5 homens. O pessoal ordinário, conforme os seus empregos, assim variam os salários.

Os fidalgos de 3a. dos Feudais equiparam-se aos agricultores superiores. O seu vencimento chega para o seu pessoal agrícola. Um fidalgo de 2a. tem o dobro do de 3a. Um fidalgo de 1 a. tem o dobro do de 2a.

O Representante regional de 2a. tem o dobro do fidalgo de 1a.

O Primeiro Ministro tem vencimento de 4 Representantes regionais.

O Príncipe vence por 10 Representantes regionais de 1a. ou Ministros.

O 1o. Ministro de Estado de 2a. classe tem vencimento de 3 Representantes regionais, tendo o respectivo Príncipe Feudal vencimento de 10 Ministros.

O 1o. Ministro de um Estado Pequeno tem vencimento duplo dos Representantes regionais, e o respectivo Príncipe, o de dez Primeiros Ministros.

O lugar do 1o. Ministro equivale ao médio de um Grande Estado; o 2o. Ministro equipara-se ao seu inferior; o 3o. equipara-se ao seu Representante regional de 1a.

Num Estado Pequeno, o 1o. Ministro equipara-se ao 2o. Ministro de um Estado Grande; o 2o. ao respectivo Grande Senhor de 1a.; e o 3o. ao respectivo Grande Senhor de 2a.

Além disso, há os fidalgos de 2a. e de 3a., cada qual com um terço do seu superior em categoria.

Em todo o Império, há Nove Províncias, tendo cada uma mil li quadrados. A Província toma 30 dos Estados de 100 li, 60 dos Estados de 70 li, e dos Estados de 50 li, 120: num total de 210 Estados. Os montes famosos e grandes lagos não se enfeudam. O restante considera-se terreno baldio dependente. Das 8 Províncias, cada uma tem 210 Estados.



37. Mêncio – o sistema dos nove terrenos.
Embora o sistema proposto por Mêncio não pareça ser novo, tratava-se de uma racionalização da exploração do campo e da concessão de direitos aos camponeses, delimitando suas obrigações e deveres. A idéia de Mêncio buscava antes de tudo assegurar a subsistência da sociedade, proporcionando uma produtividade coerente e não-predatória. Alguns soberanos tentaram aplicá-lo, uns com sucesso, outros não. Em alguns lugares, ele veio a se tornar tradição; em outros, simplesmente nunca existiu de modo eficaz.

O duque Wen de Tang enviou Pi Chan informar-se acerca do sistema dos nove quadrados.

Disse-lhe Mêncio: Desde que o vosso soberano, desejando pôr em prática um governo benigno, vos escolheu e confiou-vos este encargo, deveis usar de todo o vosso empenho. O governo clemente deve começar pela definição das fronteiras. Se elas não forem demarcadas cuidadosamente, a divisão do território em quadrados não seria exata, e a produção aproveitável para os salários não seria distribuída com equidade. Eis porque os soberanos opressores e os ministros impuros descuram invariavelmente a demarcação dos limites. Quando estes são definidos corretamente, a divisão dos campos e a regulamentação dos salários são fáceis de determinar. Embora o território de Tang seja estreito e reduzido, devem existir neles homens de categoria superior e camponeses. Se não houvesse indivíduos de classe elevada, não haveria quem governasse os lavradores; se faltassem os lavradores, não haveria quem sustentasse os homens de categoria superior. Aconselho-vos a observar, em distritos puramente rurais, a divisão em nove quadrados, um deles cultivado pelo sistema do auxílio mútuo; nas terras centrais do Estado, instituí-se uma dízima a ser paga pelos próprios lavradores. A partir dos supremos dignitários, tenha cada qual o seu campo santo de cinqüenta acres. Os homens de posição inferior recebam os seus vinte e cinco acres. Em ocasiões de morte ou de mudança, não haja necessidade de sair do distrito. Nos campos de cada um deles, os que pertencem aos mesmos nove quadrados oferecerão espontaneamente o seu préstimo uns aos outros; deverão ajudar-se mutuamente na vigilância e na guarda; e serão obrigados a sustentarem-se uns aos outros, em períodos de doença. Um li (500mt) quadrado abrange nove quadrados de terra, e estes por sua vez contém novecentos acres. O quadrado central consta dos campos públicos; oito famílias, cada qual provida de cem acres, o cultivam juntas. E só depois de realizada a tarefa comum, poderão cuidar dos seus campos privados. É por este meio que os camponeses se diferenciam dos homens de categoria superior. Eis o esboço geral do sistema. Cabe ao vosso soberano e a vós modificá-lo e adaptá-lo com acerto.



38. Shang Yang – a importância da agricultura.
O filósofo legista Shang Yang entendia a agricultura e a guerra como dois pontos centrais de um governo, à serem supervisionados diretamente pelo Estado. A centralização, a regulação e a vigia sobre as atividades econômicas viria a ser uma de suas metas principais, indo de encontro aos interesses feudais da época.

No domínio dos assuntos internos relacionados com as pessoas, não há nada mais difícil do que a agricultura. Dai que uma fácil administração não os consiga induzir à mesma. O que se chama de uma fácil administração? Quando os agricultores são pobres e os comerciantes são ricos, quando as pessoas sagazes obtêm lucros e os que buscam cargos itinerantes são numerosos. Pelo que, os agricultores, apesar do seu trabalho extremamente árduo, obtêm pouco lucro e, perante a carência deste, encontram-se numa situação mais grave do que os comerciantes e lojistas e toda a espécie de pessoas sagazes. Ao lograr-se restringir o número deste último tipo, então, mesmo que fosse esse o desejo, não se poderia evitar que um estado se tornasse rico. Dai dizer-se: “Caso se pretenda enriquecer o país através da agricultura, então, no limite das fronteiras, os cereais devem ser prezados, os impostos para aqueles que não são agricultores devem ser consideráveis e os direitos sobre o lucro obtido nos mercados devem ser pesados, com o resultado de que as pessoas são forçadas a possuir terra. Uma vez que aqueles que não possuem terras são obrigados a comprar cereais, estes serão prezados e aqueles que possuem terras tirarão, assim, proveito. Quando aqueles que possuem terras obtêm lucro, existirão muitos que se dedicarão [à agricultura]. Quando os cereais são prezados e o respectivo negócio não é lucrativo, enquanto se impõem, além disso, pesados impostos, as pessoas não falharão em suprimir os comerciantes e lojistas e toda a espécie de gente sagaz, nem em dedicar-se a exploração do solo. Pelo que a força do povo será completamente exercida na exploração do solo. Daí que aquele que organiza um estado deveria permitir que os soldados detivessem a totalidade dos lucros nas fronteiras, e que os agricultores detivessem a totalidade dos lucros do mercado. Se a primeira situação ocorrer, o estado será forte e se a segunda ocorrer, será rico. Por conseguinte, aquele que, no estrangeiro, é forte em tempo de guerra e, na pátria, é rico em tempo de paz, alcançará a supremacia. Uma vez que, se os cereais são baratos, o valor do dinheiro é elevado, e os cereais baratos representam agricultores pobres, e valores elevados de dinheiro representam comerciantes ricos; e se as ocupações secundárias não são proibidas, então (...).



39. Guanzi – as regulações.
O texto de Guanzi foi pouco conhecido mesmo entre os chineses, senão em temas específicos. Guanzi (ou Guan Zhong) teria vivido no século -6, mas seu texto só aparece muito depois, misturando tendências confucionistas, legistas, e mesmo daoístas. No entanto, algumas de suas frases entraram para os ditos populares chineses, como “eduque as crianças para não punir os adultos”, entre outras. Seu livro é variado, tratando temas diversos focados principalmente na política e na sociedade. No entanto, usas idéias sobre regulação de mercado são interessantes e inovadoras, permeando os debates que se seguiriam na história chinesa.

Duque Huan perguntou: "Por favor, me conte sobre o regulamento estatal. Guan Zhong respondeu: Há regulamentos para fazendas, para homens, para lojas, para áreas rurais, para empreendimentos públicos, para a moeda corrente, para os distritos, e para o estado inteiro..."

Duque Huan disse: "Como eu posso regulá-los?"? Guan Zhong respondeu "Em cada aldeia, a quantia de terra de fazenda, o número de trabalhadores e a quantia de grão produzido devem ser averiguados. Do mesmo modo, em cada distrito, o número das pessoas, a quantia de terras produtivas, o consumo de grão, e os estoques de comida em um ano normal devem ser determinados. Novamente, em cada aldeia, a produção de cada ano realizada pelas mulheres deve ser anotada, enquanto realiza-se estimativas anuais de acordo com as quatro estações. E o registro dos estoques deve prever acima e abaixo o necessário para a alimentação e vestimenta dos habitantes, bem como devem ser observados o tipos de solo disponíveis para o plantio.

Duque que Huan perguntou: “Por que devemos classificar as terras"? Guan Zhong respondeu: Há terra de todos os tipos; há terra para bambu, para sândalo, e para árvores de amora; há terra localizada em barreiros e pântanos; há terra que pode ser inundada, satisfatória para prover peixes e tartarugas. Estes quatro tipos de terra devem ser controladas e mantidas cuidadosamente pelo governo. Os impostos devem ser fixados de acordo com a produção, e rateados de acordo com os homens ou a área disponível.



40.Sima Qian – da riqueza e do comércio.
Neste capítulo o historiador Sima Qian faz uma análise do panorama econômico de sua época, e as implicações morais de tais atividades.

Nada sei com relação aos tempos pré-históricos anteriores a Shennung, mas desde as dinastias Yin e Xia (depois do vigésimo-segundo século a. C.), durante o período debatido pelos documentos históricos, a natureza humana sempre lutou por bons alimentos, roupas, diversões e conforto físico e sempre teve tendência a orgulhar-se da riqueza e da ostentação. Não importa que os filósofos possam ensinar de modo diferente: não é possível mudar as pessoas. Assim, os melhores homens deixam-nas à vontade; a seguir, vêm os que tentam guiá-las; depois, os que moralizam a seu respeito; depois, que procuram adaptar-se a elas; e, por fim, os que entram na mesma porfia. Em suma, Shansi produz madeira, cereais, linho, pelos de boi e jades. Shantung produz peixe, sal, laca, sedas e instrumentos musicais. Jiangnan (ao sul do Yangzi) produz cedro, zu (madeira dura para a fabricação de blocos de impressão), gengibre, canela, minérios de ouro e estanho, cinábrio, chifres de rinoceronte, carapaças de tartaruga, pérolas e couros. Lungmen produz pedra para tabuletas. O norte produz cavalos, bovinos, carneiros, peles e chifres. Cobre e ferro são muitas vezes encontrados por toda parte, nas montanhas, espalhados como peões num tabuleiro de xadrez. É de tudo isso que o povo da China gosta e tais artigos atendem às necessidades de sua existência e das cerimônias para os mortos. Os homens do campo os produzem, os atacadistas os trazem do interior, os artesãos trabalham neles e os mercadores com eles negociam. Tudo isto se verifica sem a intervenção do governo ou dos filósofos. Cada qual faz o melhor que pode e utiliza seu trabalho para obter o que quer. Assim, os preços procuram seu nível, indo as mercadorias baratas para onde são mais caras e dessa forma baixando os preços mais altos. As pessoas seguem suas respectivas profissões e o fazem por sua própria iniciativa. É como o fluir da água, que procura o nível mais baixo dia e noite, sem parar. Todas as coisas são produzidas pelo próprio povo sem que lho peçam e transportadas para onde há precisão delas. Não é verdade que tais operações ocorrem naturalmente, de acordo com seus próprios princípios? O Livro de Zhou diz: “Sem os lavradores, não serão produzidos víveres; sem os artesãos, a indústria não se desenvolverá; sem os mercadores, os bens de valor desaparecerão; e, sem os atacadistas, não haverá capitais e os recursos naturais de lagos e montanhas não serão explorados”. Nossos alimentos e nossas vestes vêm dessas quatro classes, e a riqueza e a pobreza variam com o volume dessas fontes. Com isso, em escala maior, beneficia-se um país; em escala menor, enriquece-se uma família. São estas as inevitáveis leis da riqueza e da pobreza. Os argutos têm bastante e poupam, ao passo que os estúpidos nunca têm quanto baste...Devem, portanto, primeiro estar cheios os celeiros antes que o povo possa falar de cultura. O povo deve ter suficiente alimento e boas roupas antes que possa falar em honra. Os bons costumes e as delicadezas sociais provêm da riqueza e desaparecem quando o país é pobre. Assim como um peixe prospera num lago fundo e os animais gravitam para a selva espessa, assim também a moral da humanidade vem como efeito da riqueza. O rico adquire poder e influência, ao passo que o pobre é infeliz e não tem para onde se voltar. Isto é ainda mais certo com relação aos bárbaros. [...]



41.Yantienlun
Os debates sobre o sal e o ferro (Yantienlun) tratam-se da primeira ata de discussões sobre a manutenção – ou não – dos monopólios do Estado sobre certos campos da produção. Escrito na época Han, o texto já antecede os futuros embates entre políticas econômicas estatais ou a livre inciativa das forças econômicas. Embora pouco conhecido pelos ocidentais, o texto tornou-se uma referência na China, sendo pontualmente retomado em ocasiões fundamentais para a economia do país, tal como a chegada dos europeus, por exemplo, e suas tentativas de entrar no mercado chinês a partir do séc. 16.

Letrados: Entendemos que o modo de governar se baseia na prevenção da frivolidade ao mesmo tempo em que promove a moralidade, em terminar com a busca do beneficio egoísta e desejar o caminho da benevolência e do trabalho. Quando se enfatiza o beneficio, uma civilização floresce e melhoram os costumes dos homens. Recentemente, o monopólio do sal e do ferro, o imposto sobre licores e o tabelamento de preços foi estabelecido em todo o país. Isto implica uma relação financeira com o povo que mina sua natural honestidade e corrompe seu espírito solidário. Como resultado, uns poucos continuaram a exercer o fundamental (o cultivo da terra) e a maioria fará o secundário (comercio e indústria). Quando o artificial prospera a simplicidade declina. Quando o que e secundário floresce, o básico decai. A ênfase no secundário faz o povo decadente, a ênfase no básico mantém as gentes sem sofisticações. Quando as pessoas não são sofisticadas, a riqueza abunda; quando são extravagantes, tudo falta, e o frio e a fome tem lugar. Nós propomos que os monopólios do sal, do ferro e do licor, assim como o tabelamento, sejam abolidos. Deste modo se revitalizara o básico e o povo deixara de praticar o secundário. Assim, a agricultura voltará a prosperar. Isto é o apropriado.

Ministro: Os antigos fundadores do nosso império assentaram as bases para as ocupações primárias e secundárias. Facilitaram a circulação de bens e criaram mercados e feiras para harmonizar as demandas. Se junto gente de todas as classes, e mercadorias de todos os tipos foram reunidas de modo que os camponeses, comerciantes e trabalhadores puderam obter o que necessitavam. Quando a troca de produtos era levado a cabo, cada um voltava para sua casa. O Yijing diz: facilite as trocas, de modo que as pessoas não se vejam sobrecarregadas em seu trabalho”. Isso se sucede quando os camponeses não contam com suas ferramentas e mercadorias, e não conseguem obter o mínimo conforto. Quando os camponeses carecem de suas ferramentas e não podem vender com facilidade seus produtos, do mesmo modo quando não existem mercadorias para comprar, então a riqueza de todos decai. O monopólio do sal e do ferro, bem como mercado eqüitativo, foram estabelecidos para melhorar a troca de riquezas acumuladas e para regular o consumo de acordo com a necessidade. Por isso, é desapropriado aboli-lo.



42. Maozedong – o “grande salto”.
O “Grande salto adiante” (1958+1962) foi uma das tentativas de Mao de acelerar o crescimento econômico chinês por meio de uma reforma no campo (reformulando a produção nas comunas socialistas) e incrementando a produção industrial. Metas exageradas, planos descabidos e falta de experiência foram responsáveis por um desastre de proporções épicas, que abalaram a imagem do grande timoneiro, salva tão somente a custa de notícias falsas e muita propaganda. Junto com a revolução cultural (1966+1976), este foi um dos lados sombrios da revolução chinesa.

Nós estamos principalmente preocupados com a relação entre o crescimento de indústria pesada, da indústria leve e a agricultura, discutindo nosso caminho para a industrialização. Tem-se afirmado que indústria pesada é a base da construção econômica de China. Ao mesmo tempo, deve ser prestada atenção completa ao desenvolvimento de agricultura e da indústria leve.

Como a China é um país agrícola grande, com mais de 80% de sua população nas áreas rurais, a agricultura tem que se desenvolver junto com indústria, para só assim a indústria assegurar matérias-primas e um mercado, e só assim é possível acumular mais fundos por construir uma indústria pesada poderosa. Todo o mundo sabe que indústria leve está ligada estreitamente com a agricultura. Sem agricultura não pode haver nenhuma indústria leve. Contudo, não tem ficado tão claramente entendido que a agricultura proporciona para indústria pesada um mercado importante. Porém, esta questão será apreciada mais prontamente com o progresso gradual na transformação técnica e modernização das necessidades da agricultura com mais maquinaria, fertilizante, conservação de água e projetos de energia elétrica, instalações de transporte para as fazendas, como também combustível e material de construção para os consumidores rurais. Durante o período do Segundo e Terceiros Planos qüinqüenais, a economia nacional inteira somente se beneficiará se nós pudermos alcançar um maior crescimento em nossa agricultura, e assim poderemos proporcionar consequentemente, um maior desenvolvimento da indústria leve. Como agricultura e indústria leve desenvolvidas, indústria pesada, os mercados e os fundos de investimento crescerão mais rápido. Conseqüentemente o que pode parecer ser um passo mais lento de industrialização não será na verdade tão lento, e realmente pode ser até mesmo mais rápido. Em três planos qüinqüenais, ou talvez um pequeno ou mais longo, a produção de aço anual de China pode ser elevada a 20,000,000 toneladas ou mais, comparado com a produção do período de pré-libertação, quando ela chegou a algo em torno de 900,000 toneladas em 1943. Isto alegrará as pessoas nas cidades e no país.

Eu não proponho enfatizar questões econômicas hoje. Com apenas sete anos de construção econômica atrás de nós, nós falta ainda experiência e precisamos acumular isto. Nós não tivemos qualquer experiência antes da revolução quando nós a começamos, e só depois que nós levamos várias quedas, e adquirimos experiência, nós ganhamos a vitória em âmbito nacional. O que nós temos que exigir agora de nós mesmos é ganhar experiência em construção econômica em um período mais curto de tempo que nos levou ganhar experiência em revolução, e não pagar um alto preço por isto. Alguns acreditam que nós teremos que pagar, mas nós esperamos que este preço não seja tão alto quanto o que durante o período de revolução. Nós temos que perceber que há uma contradição aqui - a contradição entre as leis objetivas de desenvolvimento econômico de uma sociedade socialista e nosso conhecimento subjetivo delas - que precisa ser solucionado no curso de prática. Esta contradição também se manifesta como uma contradição entre pessoas diferentes, quer dizer, uma contradição entre esses em quem a reflexão destas leis objetivas é relativamente precisa e esses em quem a reflexão é relativamente inexata; também, esta é uma contradição entre as pessoas. Toda contradição é uma realidade objetiva, e é nossa tarefa refletir sobre isto e solucionar a questão do modo mais adequado possível para todos nós.



43. Deng Xiaoping e a Não-Contradição.
Neste texto Deng Xiaoping busca explicar, de modo teórico, as adaptações do comunismo chinês às leis do mercado, e porque estas reformas não seriam, aparentemente, contraditórias em termos ideológicos ao marxismo. Ainda que existe uma diferença profunda entre o discurso, a teoria e a prática, a questão é que a China superou brilhantemente o colapso do mundo comunista soviético, servido de referência como modelo de regime para algumas dessas ex-repúblicas comunistas.

Deng: Não há nenhuma contradição fundamental entre socialismo e uma economia de mercado. O problema é como desenvolver as forças produtivas mais efetivamente. Nós tínhamos uma economia planificada, mas nossa experiência durante os anos provou que certas políticas econômicas totalmente planejadas só ajudam até certo ponto o desenvolvimento das forças produtivas. Se nós combinarmos uma economia planejada com uma economia de mercado, nós estaremos em uma posição melhor para liberar as forças produtivas e acelerar crescimento econômico.

Desde a Terceira seção plenária do décimo primeiro encontro do Comitê central do Partido, nós acentuamos a importância de apoiar os Quatro Princípios Cardeais, especialmente o princípio de manter ao sistema socialista, constantemente. Se nós formos manter ao sistema socialista, é essencial para nós desenvolvermos as forças produtivas. Nós, por muito tempo, não resolvemos esta questão satisfatoriamente. Numa análise final, deveríamos demonstrar a superioridade de socialismo em um maior desenvolvimento das forças produtivas. A experiência que nós ganhamos em cima dos acontecimentos ocorridos com a estrutura econômica anterior mostrou que nós não pudemos desenvolver as forças produtivas. Mas isso será possível por que nós temos utilizado alguns métodos capitalistas úteis. Está claro agora que a aproximação certa é uma abertura para o mundo externo, combinando uma economia planejada com uma economia de mercado e introduzindo reformas estruturais. Esta corrida se opõe aos princípios de socialismo? Não, porque no curso de reforma nós teremos certeza de duas coisas: o setor público continuará sendo predominante na economia; o outro é buscarmos o desenvolvimento da economia para garantir uma prosperidade comum, sempre tentando evitar as diferenciações. As políticas de usar fundos estrangeiros e permitir o setor privado se expandir não debilitarão a posição predominante do setor público que é, como um todo, a característica básica da economia. Ao contrário, as políticas são planejadas, na última análise, para desenvolver as forças produtivas mais vigorosamente e fortalecer o setor público. Conquanto o setor público mantenha um papel predominante na economia de China, a polarização pode ser evitada. Claro que, algumas regiões e algumas pessoas podem prosperar antes que outros o façam; então, eles poderão ajudar outras regiões e outras pessoas a fazer gradualmente o mesmo. Estou convencido de que os fenômenos negativos que podem ser achados agora na sociedade diminuirão gradualmente e eventualmente desaparecerão com o crescimento da economia, e nossos níveis científicos, culturais e educacionais cresceram, assim como a democracia e o sistema legal sairão fortalecidos.

Em resumo, a tarefa principal da China hoje é se lançar de coração e alma na direção da modernização. Enquanto aproveitamos as vantagens inerentes do socialismo, nós também estaremos empregando alguns métodos capitalistas - mas só os métodos para desenvolver o crescimento das forças produtivas. É verdade que algumas coisas negativas aparecerão neste processo, mas o que é mais importante é o progresso agradável que nós pudermos alcançar, iniciando estas reformas e seguindo esta via. A China não tem alternativa, senão seguir esta estrada. É a única estrada é a prosperidade.

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