SOCIEDADE

O desenvolvimento dos costumes e tradições sociais chinesas é, de fato, impossível de ser coberto em sua duração milenar. A construção dos hábitos chineses se deu (ou se dá, ainda) por uma articulação ancestral que conjuga a importância da vida comunitária e familiar num sentido gregário, em que o indivíduo vê sua realização pessoal e social na integração com a comunidade. As regulações, na vida chinesa, são então de vital importância, e a atenção aos detalhes tornou-se uma fixação desde a antiguidade. Eis a razão pela qual Laozi propunha, por exemplo, o desprendimento destas regras, ou Zisi (neto de Confúcio), propunha a justa medida das coisas. Viver em sociedade, do ponto de vista chinês, é viver a tradição. O que apresentaremos, pois, são uma série de facetas desta vida chinesa, desde os tempos antigos. De início, do Liji, temos a definição do conceito fundamental para a existência desta civilização que é o Li, ou “rito”, mas que pode ser mais bem compreendido como regras sociológicas de boa conduta e convivência. Deste extenso manual, teremos ainda as seções sobre nascimento, funeral e luto, o ciclo de vida dos meninos e meninas, e sobre os anciãos. Veremos ainda o estabelecimento, por Confúcio, do que seriam os cinco deveres sociais; no Tratado da Piedade Filial (Xiaojing, séc.-1?), como essas regras são observadas; em Guanzi e Mêncio, a aparição da idéia de divisão em classes sociais, que se tornaria uma visão básica de sociedade entre os chineses; veremos ainda a vida dos funcionários no texto de Sima Guang, problemas com a corrupção burocrática, as dificuldades dos mercadores, a vida dos camponeses, o lamento dos soldados, um calendário campestre e por fim, a análise da sociedade chinesa empreendida por Maozedong nos primórdios da revolução comunista.


44. Liji - O que é Li (ritos)?
Este texto do Liji apresenta o seu tema central: o que é “Li”? A tradução desta palavra é bastante difícil; podemos entendê-la como rito, regras, etiqueta, cerimonial, hábitos, costumes, comportamento...enfim, o Liji se trataria, portanto, de um manual de regras sociológicas extraídas do mundo chinês por Confúcio, abrangendo inúmeros campos da vida cotidiana. O que vemos a seguir é, pois, uma breve explicação sobre oq eu significaria esta palavra para os próprios chineses da época.

No começo, li (cultura) surgiu com a comida e bebida. O povo assava milho e carne de porco, cortados à mão, em lascas de pedra aquecidas. Cavavam buracos no chão, à maneira de vasilhames, e bebiam diretamente nas conchas das mãos. Modelavam em barro seus tambores e as baquetas, materiais esses que parece terem-se provado à altura de seus cultos aos espíritos. Quando morria alguém, os parentes subiam ao telhado e gritavam bem alto, ao espírito: "Ahoooooo! Fulano, quereis fazer o obséquio de voltar ao vosso corpo?" (Se o espírito não voltava, e a pessoa estava realmente morta) então assavam arroz cru e carne assada para oferendas, levantavam a cabeça para o céu "a fim de ver longe" (wang) o espírito e enterravam o cadáver. O elemento material descia então (à terra) e o elemento espiritual subia (ao firmamento). Os mortos eram enterrados com a cabeça na direção norte, e os vivos tinham suas casas com o frontispício voltado para o sul. Tais eram os costumes primitivos.

Antigamente os governantes não possuíam casas; moravam em grutas escavadas ou em abrigos de madeira empilhada, no inverno, e em ninhos feitos com ramos secos (na copa de árvores) durante o verão. Não conheciam os usos do fogo; comiam frutos e a carne de aves e animais, bebendo-lhes o sangue. Não tinham sedas nem outros tecidos, vestiam-se com penas e peles de animais. Mais tarde vieram os Sábios, que lhes ensinaram a utilizar o fogo e a fundir metais em moldes de bambu e a modelar o barro em vasilhas. Então construíram galpões e casas com portas e janelas, e passaram a chamuscar e fumegar e cozer e assar a carne em espetos, e fabricaram o vinho e o vinagre. Começaram também a usar tecidos de fibras e sedas, preparando as vestes para uso dos vivos e oferendas aos mortos e cultos aos espíritos e a Deus. Tais práticas foram também herdadas dos primórdios. Por isso, guardava-se o vinho escuro no aposento interior, o vinho branco junto à porta do sul, o vinho tinto no vestíbulo e o vinho mosto do lado de fora. As oferendas de carnes eram então preparadas, e o tripé redondo e o vaso quadrangular postos em ordem, e os instrumentos de música - o qin, o sebo a flauta, o ching (pedra musical suspensa por um fio e batida como gongo), os guizos e tambores, tudo nos seus lugares, e a oração do sacrifício aos mortos e a de resposta dos mortos eram cuidadosamente elaboradas e lidas a fim de que os espíritos do céu e os dos ancestrais pudessem baixar ao lugar do culto. Todas essas práticas tinham o propósito de manter a devida distinção entre governantes e governados, preservar o amor entre pais e filhos, incutir a gentileza entre os irmãos, regular as relações entre superiores e subalternos, e estabelecer de parte a parte as condições de convívio entre marido e mulher, para que sobre todos pairasse a bênção do Céu. Preparavam-se então as lamentações do sacrifício. O vinho negro ou escuro era empregado nas libações, e o sangue e o pêlo dos animais era usado nas oferendas, e a carne crua colocava-se num vaso quadrangular. Também se oferecia carne assada; abria-se uma esteira no chão e cobriam-se os vasos com uma peça de tecido rústico, e as indumentárias que se vestiam para a cerimônia eram de seda. Os diversos vinhos, li e chien, carnes assadas e de fumeiro, também se usavam nas oferendas. O soberano e a rainha procediam ao oferecimento alternadamente, a fim de que os bons espíritos pudessem baixar e eles se integrassem no mundo oculto. Após os sacrifícios, propiciava-se então uma festa aos hóspedes, dividindo os cães e porcos e as reses e ovelhas da oferenda e distribuindo-os em vasilhames diversos. A oração aos mortos proclamava a gratidão e lealdade dos viventes, e a resposta dos mortos sugeria a sua contínua afeição aos vivos. Tal era o grandioso e abençoado sentido da li. [...]

Li constitui, pois, para um soberano, a grande arma ou instrumento de poder, com que conjurar os maus hábitos e os começos de desordem, realizar sacrifícios e oferendas aos espíritos, estabelecer os quadros da vida social, distinguir os procedimentos do amor e do dever. É o meto pelo qual um país se governa e se mantém firme a posição do governante. Pois se o governo não é direito, a posição do soberano está ameaçada; e quando a posição do soberano é ameaçada, seus oficiais de maior autoridade tornam-se arrogantes e os de menor autoridade começam a prevaricar. Vêem-se então criminosos punidos com severas penas, mas a moralidade do povo assim mesmo se corrompe e verifica-se uma ausência geral de bons princípios. Com a falta de princípios generalizada, subverte-se a ordem social; e com a subversão da ordem social os mais aptos não poderão exercer devidamente seus ofícios. E quando os criminosos são punidos com severas penas e a moralidade do povo se corrompe, então os cidadãos já não serão fiéis a seu soberano, ou partirão para outros países. A isto se chama "um estado doentio".



45. Liji – o Nascimento.
Nos trechos a seguir, o Liji cobre as várias facetas da vida antiga chinesa: nascer, morrer, o ciclo da vida e a entrada no mundo adulto, etc.

Quando a esposa vai dar à luz, chegado o mês de espera, irá viver num aposento lateral. O marido mandará alguém duas vezes por dia a informar-se dela. Sentindo-se movido a isso, ele próprio irá informar-se. A esposa não se atrevendo a aparecer, mandará a parteira que se encarregue de lhe responder. Chegada a altura de nascer o filho, o marido de novo manda alguém duas vezes por dia a informar-se. O marido, por respeito, não entrará no aposento lateral.

Nascido o filho, se for menino, por-se-á um arco à esquerda da porta; e se for menina, por-se-á uma toalha à direita da porta. Passados 3 dias, começará a lavar-se a criança. Se for menino, haverá exercício de tiro, mas não se for menina.

Quando nasce o filho herdeiro do Príncipe, este é avisado e recebe o mensageiro com uma grande recompensa (um vitelo, um carneiro e um porco). O servo encarrega-se de apresentar a prenda. Três dias depois, tira-se à sorte o fidalgo que há de andar com o menino. Quem teve a sorte, cumpre com o dever de se purificar, e de manhã, veste-se fora da porta dos aposentos, e toma depois o menino nos braços. O chefe dos atiradores, com um arco de amoreira, atira seis setas ao acaso: para o céu, para a terra e para os quatro pontos cardeais. O criado recebe o menino e toma-o nos braços. O servo dá-lhe bebida doce e oferece-lhe um molho de sedas.

A esposa do sorteado e a concubina de um representante da região recebem ordens de alimentar a criança. Haverá dias marcados para as pessoas se encontrarem com o menino. O filho mais velho do Príncipe terá a prenda grande, o homem do povo, um leitão; o fidalgo um porco, o representante da região, a pequena prenda (uma ovelha e um porco), o filho herdeiro, a prenda grande. Não sendo filho mais velho, as prendas baixarão um degrau. Construir-se-á para o menino um aposento especial dentro do Palácio. Escolher-se-á entre as matronas a mais capaz, que terá que ser de grande coração, bondosa, de natural afável, respeitosa, ponderada e de poucas palavras, para ser a aia do menino. Uma segunda será a chamada "boa mãe", e uma terceira será preceptora. Todas viverão nos aposentos do menino. Toda a mais gente só com motivo poderá entrar lá.

Três meses depois, num dia escolhido, rapa-se o cabelo da criança, deixando os carrapitos ao menino, e um tufo atado na menina, ou senão uma madeixa à esquerda no menino e à direita na menina. Nesse mesmo dia, a esposa apresentar-se-á ao Pai com a sua prole. [...] A esposa, com o filho nos braços, sai do aposento e fica de pé no limiar da porta, virada ao Oriente. A mestra-escola presta-se e diz:

"A Mãe Fulana toma a liberdade de se aproveitar deste dia para apresentar respeitosamente o seu menino". Responde o marido: "Cuide-se de que tenha bons exemplos a imitar" Então o Pai, tomando a mão direita do menino, exclama dizendo o seu nome. A esposa responde: "estarei presente para o cumprir." Depois, virando-se à esquerda, transmite o recado à Mestra. A Mestra do menino então virando-se para um lado e outro, anunciará a todas as esposas e mães o nome. A seguir a Esposa dirige-se aos seus aposentos.

O marido participa o nome ao servo da casa. Este anuncia por toda a parte aos homens. E escreve, dizendo: "Tal ano, tal mês, tal dia, Fulana deu à luz". E arquivará. O servo participa ao Secretário da freguesia, e este escreve em duas cópias, uma para ficar na Administração da freguesia, outra para entregar ao Secretário do Distrito ou Província, o qual a passará ao Governador da Província, que a mandará arquivar no Governo Provincial.

O marido vai então tomar parte na refeição oferecida pela noiva aos sogros. Quando nasce o filho herdeiro, o Príncipe lava o seu traje de Corte. E a Esposa faz o mesmo. Ambos de pé na escadaria oriental se viram ao Ocidente. A segunda mulher do pai, com a criança nos braços, sobe pela escadaria ocidental. O Príncipe dá-lhe o nome, e desce. O filho legítimo e o filho secundário ou bastardo são apresentados na sala exterior. O Príncipe, impondo-lhe a mão na cabeça, dirá em voz alta o seu nome. O resto da cerimônia é como antes, sem omissões. No dar o nome a um filho, não deve entrar o mês nem o dia, nem o Estado; nem um desgosto oculto. O filho do conselheiro provincial e do Fidalgo não deve ter um nome como o do Príncipe herdeiro.

Quando uma concubina vai dar à luz, chegado o mês de espera, o marido manda alguém cada dia a informar-se. Nascido o menino, passados três meses, lava-se a roupa e faz-se a purificação de manhã, apresentando-o na sala interior. Ai o marido recebe a mãe com as honras com que a recebeu pela primeira vez em casa; depois de ele comer, levantando a mesa, fará com que ela coma as oferendas, voltando depois à sua condição de concubina.

Ao nascer um filho bastardo a um Duque, vai para o aposento lateral. Lá, passados três meses, a mãe dele lava os seus vestidos de visita, e apresenta-o ao Príncipe. A Mestra, que se apresenta junto com o menino, mostrará as prendas do Príncipe. O Príncipe dará o nome ao menino. Todos os outros filhos, ele mandará que o Encarregado lhes ponha os nomes.

A gente do povo, como não tem dependências laterais nas suas casas, chegado o mês de espera, o marido vai para os aposentos comuns. No mais, pedir informações, e a apresentação do filho ao pai, é igual sem nada de diferente.

Em vida do pai, o neto será apresentado ao avô, e o avô dar-lhe-á o nome, com a cerimônia da apresentação do filho ao pai, sem omissões. As pessoas que alimentam a criança, ir-se-ão embora ao fim de três anos. Apresentar-se-ão no Palácio do Príncipe que as recompensará.

O filho de um representante regional tem a sua ama. A esposa de um fidalgo cria ela o filho. Do Fidalgo em comissão para cima, até ao filho do representante regional, a apresentação é por igual. [...]



46. Liji - Funeral e Luto.
Nesta breve seção do Liji, explicam-se os rituais funerários, e ao final, as regras de luto. Estes trechos repetem-se ao longo do próprio Liji, bem como se encontram no Lunyu (Diálogos), no Zhong Yong (Justa Medida) e outros livros da literatura confucionista.

Quando a doença causa apreensões, esvazia-se tudo dentro e fora. Tratando-se de um Grande, tiram-se os suportes dos instrumentos de música. Sendo um Senhor, removem-se as harpas e as guitarras. O doente é deitado na câmara, de cabeça para o Oriente, debaixo da janela do norte. Desfaz-se a cama. Tiram-se ao doente as vestes ordinárias, substituindo-as por outras novas. Quatro homens pegam no doente. Toda a gente da casa, homens e mulheres mudam de vestes. Aproxima-se do nariz do doente um floco de cadarça, para se perceber quando expira. Um homem não morre em mãos de mulheres, nem a mulher morre em mãos de homens.

O Monarca e a Esposa morrem na câmara principal dos seus aposentos. Também o Grande e a sua Esposa morrem na sua Câmara principal Se a Esposa ainda não foi reconhecida pelo Soberano, morre num dos seus aposentos secundários, donde se transfere para a Câmara principal. A esposa de um Senhor morre na Câmara principal.

Na evocação da alma, se o morto possuía florestas nos campos ou nas vertentes, então o silvicultor, arruma a escada à parede. Não tendo matas, é um criado ordinário que arruma a escada (para subir ao telhado). Um criado inferior do morto, faz a evocação. Quem faz a evocação põe traje de Corte. O Chefe de Estado evoca-se com a túnica dos dragões; a esposa, com o vestido dos faisões; um Grande, com a toga preta e a veste inferior vermelha; a mulher dele, com o vestido branco sem adornos; o Senhor com o seu barrete de peles próprio; a sua esposa, com o vestido preto de orla parda.

O evocador sobe sempre pela ala esquerda do edifício, vai até ao meio do telhado, e ali de pé na crista, virado ao norte, grita três vezes. Depois enrola a veste e atira-a para diante, apanhando-a um encarregado do vestiário. O evocador desce junto ao arrebique do telhado a Noroeste. Se o morto estava de visita a outro Estado, faz-se a evocação na Hospedaria do Estado. Se estava em hospedaria particular, não há evocação. Se estava numa herdade ou no campo, sobe-se à sua carruagem e faz-se a evocação, de pé no cubo esquerdo do eixo.

A veste com que se faz a evocação, não deve ser a que vai vestir o cadáver, nem que há de servir para a mortalha. Na evocação de uma mulher casada, não se usa o vestido superior que ela usou nas bodas. Nas evocações, o homem chama-se pelo seu nome; a mulher, pelo nome que tomou aos 15 anos. Faz-se um pranto, e depois a evocação, depois da qual se procede aos ritos mortuários. Apenas o morto se finou, dão gritos: os filhos, choram os irmãos, e as mulheres casadas choram e saltam.

Posto o morto no seu devido lugar, o filho mais velho ajoelha em frente; os Ministros e os Grandes, os Tios, irmãos, primos e os filhos e filhas do defunto ficam de pé em frente. Os encarregados e funcionários secundários, choram ao fundo da escadaria da sala, de ar contrafeito. A Esposa fica à direita (do morto). As mulheres oficiais do Príncipe defunto, as tias, irmãs e primas, as filhas e netas, estão de pé à direita. As mulheres dos dignitários de outro apelido, bem como as filhas e netas das tias e das irmãs pranteiam na sala, de ar contrafeito. [...] encerados os prantos, sela-se o caixão na câmara mortuária.

[...]

Essa regra é agora observada universalmente desde os príncipes reinantes e nobres até os gentis-homens e povo. No caso do pai ser um nobre e o filho um simples gentil-homem, o pai quando morre, é sepultado com as honras de um nobre, porém recebe as homenagens de sacrifício como um simples gentil-homem. No caso do pai ser um simples gentil-homem e o filho ser um nobre, o pai, quando morre, é sepultado como um simples gentil-homem, mas recebe as homenagens de sacrifício com as honras de um nobre. A regra de um ano de luto para os parentes é atribuída para os que têm título nobre, todavia a regra de luto de três anos pelos pais é atribuída para todos até o Imperador. No luto pelos pais há apenas uma regra, e não há distinção entre o nobre e o plebeu.



47. Liji - Ciclo da vida
Nos trechos a seguir, veremos como se daria a vida ideal do homem e dar mulher; depois, o que significava a cerimônia do barrete viril (a boina que marcava a entrada na maturidade para os meninos).

Para as Crianças capazes de tomar o alimento, se ensina a servirem-se da mão direita. Se já podem falar, ao menino se ensina a afirmar-se, à menina se ensina a ser submissa e respeitosa. Ao menino dá se um tambor para o cinto, à menina uma sedas para o mesmo. Aos seis anos, ensinam-se Música e os nomes das ruas. Aos sete anos, meninos e meninas não se servem da mesma esteira, nem comem juntos. Aos 8 anos, para entrar e sair de casa, ou ir para a mesa a comer e beber, deverão ir atrás dos mais velhos, começando a se ensinar que sejam deferentes. Aos 9 anos, ensina-se-lhes a contar os dias. Aos 10 anos, irão ao mestre de fora, e viverão e pernoitarão fora, aprenderão a escrever e contar. No vestir, não terão casaco e calças de seda. Nos ritos seguirão os antigos. Manhã e tarde aprenderão os deveres dos meninos, pedindo respeitosamente para serem exercitados em ser sinceros e fiéis. Aos 13 anos, aprenderão a Música, a recitar poesias, e a dança e cantos guerreiros. Chegados à adolescência, aprenderão dança e esgrima, o tiro de arco e a condução. Aos 20 anos recebem o barrete e começam a aprender os ritos e regras de educação. Podem então vestir-se de peles e sedas. Aprendem toda a dança e música de Xia, e a praticar a piedade e a deferência. Aprenderão muito, mas não ensinarão nada, nem mesmo em casa mostrarão o que sabem. Aos 30 anos casa, e começará a lidar com as responsabilidades de um homem. Aprenderá muito, sem abusar. Saberá ceder aos amigos e ter em conta o parecer deles. Aos 40 anos, entrará para a administração pública, a aprenderá a emitir o seu parecer conforme os casos, bem como os seus planos. Se for o caso, cumprem-se; senão, põe-nos de lado. Aos 50 anos, será promovido a Senador ou Grande Senhor, e exercerá cargos no Governo. Aos 70 anos, renunciará aos negócios. Quando os homens se cumprimentam, dá-se o lado esquerdo.

As meninas, aos 10 anos deixam de sair à rua. A mestra ou aia ensinar-lhes-á a serem condescendentes e submissas, a lidar com o cânhamo, desenovelar os casulos da seda, a tecer e fiar, e a aprender os trabalhos femininos, para fornecer os fatos. Ela assistirá aos rituais, onde apresentará o vinho e os caldos e os vasos do serviço, as conservas e os salgados. Aos 15 anos receberá o gancho para o cabelo. Aos 20 anos casa. Havendo então luto, casará aos 23. Se houver pedido de casamento e presentes, será esposa. Não havendo essas formalidades, será concubina. Nos cumprimentos das mulheres, tem primazia o lado direito.

[...]

O que faz de um homem um homem autêntico é o seu respeito das cerimônias e boas maneiras. Estas começam por uma atitude correta, modéstia e compostura nas feições e no olhar, e bons modos ao falar. A atitude correta, a modéstia e compostura nas feições e no olhar e os bons modos ao falar, provam um respeito perfeito das boas maneiras, como exigem os deveres de Príncipe e vassalo, o amor entre Pais e filhos, a concórdia entre os adultos e os novos. Asseguradas estas três coisas, as boas maneiras tornam-se uma realidade. Por isso, depois da imposição do barrete viril é que o traje é completo. Sendo o traje completo, é que a atitude pode ser bem correta, a compostura nas feições e no olhar modesta, e haver bons modos no falar. Por isso mesmo se diz que a imposição do barrete viril é a primeira das cerimônias. Dai a importância que lhe deram os santos Reis na antiguidade.

Outrora, para a cerimônia da tomada do barrete viril, consultava-se pela aquileia sobre o dia e sobre as pessoas a convidar, mostrando nisso o respeito ao rito da imposição do barrete e o apreço dado às cerimônias. O apreço das cerimônias é a base sólida do Estado.

Por isso se faz a imposição do barrete, no cimo da escadaria principal ou do trono, para dar relevo à sucessão. Oferece-se uma taça de licor no lugar dos hóspedes. Frequentemente acrescenta-se uma escansão cheia, para orgulho de que está promovido à idade adulta. Depois de imposto o barrete, dá-se-lhe o cognome de adulto, a declarar que ele chegou à virilidade.

Vai então visitar a Mãe, que o recebe com respeito. Depois visita os irmãos, que também lhe fazem as devidas honras. Sendo adulto, é tratado com o respeito correspondente. De barrete preto e toga escura, vai à presença do Soberano, fazendo a seguir visitas aos Ministros, aos Grandes Senhores e aos veneráveis da freguesia, recebido sempre como adulto.

Ao elevá-lo à categoria de adulto, impõem-se-lhe os deveres de adulto. Carregar com as responsabilidades de adulto é ser amigo do Príncipe, ser respeitador do Príncipe, ser vassalo do Príncipe, e cumprir com o respeito devido aos assistentes ou ministros do Príncipe. Carregado com estas quatro obrigações que terá de cumprir para com o Príncipe, será que a respectiva cerimônia não é de se tomar na devida conta?

Só quando o comportamento piedoso, respeitoso, fiel e obediente for perfeito, é que se pode ser um homem público. Podendo ser considerado homem público, é que se pode ser um governante. Por isso os Santos Reis respeitavam a cerimônia. E assim se diz que a imposição do barrete é a primeira das cerimônias. O rito da virilidade é da máxima importância. Por isso os antigos apreciavam o barrete viril. E porque o apreciavam, faziam a cerimônia entre os familiares, para significar a importância que lhe davam. Apreciando-o assim, não se atreviam a fazê-lo de qualquer modo. Ao fazer a cerimônia entre os familiares, humilhavam-se a si, exaltando os Antepassados.



48. Liji – Anciãos.
No que diz respeito a veneração dos anciãos, a China tem uma tradição antiga, que privilegiava seu conhecimento e experiência. O abandono dos idoso era muito mal visto na sociedade chinesa, e entende-se que esta época da vida serve para uma reflexão sobre o seu sentido. Note-se o extremo cuidado com que a figura dos velhos é tratado, por conseguinte.

Quanto ao tratamento dado aos idosos: o Senhor de Chu fazia-o com as cerimônias de um jantar de festa; os Soberanos de Xia com cerimônias de um jantar; os Príncipes de Yin com as cerimônias de uma Ceia. Os Reis de Zhou restauraram e usaram os três modos.

Os cinqüentenários atendiam-se na freguesia; os sexagenários, na capital; os septuagenários, no Colégio, e dava-se conhecimento aos Príncipes feudais. Os octogenários cumprimentavam o Imperador desde o seu lugar, sem mais. O mesmo valia para os cegos. Os de noventa anos tinham alguém encarregado de os receber.

Aos 50 anos tinham alimento especial. Aos 60 anos tinham carne para dois dias. Os de 70 anos tinham dois pratos. Os de 80 anos tinham acepipes e carinhos permanentes. Para os de 90, bebida e comida não lhes saíam do aposento, acompanhando-os mesmo quando saram. O sexagenário tinha subsidio anual. O septuagenário tinha subsidio por estações. O octogenário tinha-o mensal; ao de 90 anos era-lhe renovado dia a dia, isto é: a peça de enrolar, o lençol, a esteira e o cobertor. Depois de morto, fazia-se-lhe a mortalha.

Aos 50 anos começa-se a enfraquecer. Aos 60, sem carne não se fica satisfeito. Aos 70, sem sedas não se aquece. Aos 80 sem outra pessoa ao lado não se aquece. Aos 90, mesmo com outra pessoa (na cama) não se aquece.

Os de 50 anos usam bengala em casa. Os de 60 usam-na na aldeia; os de 70, na capital; os de 80 na Corte. Aos de 90 anos, se o Imperador lhes quer perguntar qualquer coisa, vai ter com eles, levando consigo bons acepipes.

Aos 70 anos deixa-se o serviço da Corte. Aos 80 pergunta-se-lhes pela saúde cada mês; aos 90 anos, receberão vencimento dia a dia.

Aos 50 anos não se vai ao serviço público. Aos 60, não terá que prestar ajudas a outros. Aos 70 não tem que ajudar na recepção de hóspedes: Aos 80 não toma parte nos serviços de purificações e funerais.

Aos 50, recebem-se os títulos de distinção. Aos 60 não se vai pessoalmente aos exercícios escolares. Aos 70 renuncia-se às funções administrativas. Dos 70 anos para cima, só tomarão a faixa preta em caso de luto.

Nas Três Dinastias sempre se atendeu à idade. O filho único de um octogenário não era obrigado aos serviços públicos. Sendo nonagenário, toda a família estava isenta dos serviços. O mesmo para os cegos.

Em vida dos pais, o filho, sendo de idade, não era processado. O Senhor de Chu tratava os idosos da Casa Reinante no Asilo de Cima e os velhos do povo no Asilo de Baixo. Os Príncipes de Xia tratavam os idosos do Governo no salão de Leste, e os velhos do povo no salão ocidental. Os Senhores da dinastia Yin tratavam os velhos do Estado no Ginásio da Direita, e os velhos do povo no Ginásio da Esquerda. Na dinastia Zhou, os velhos do Governo tratavam-se no Ajuntamento de Leste, e os velhos do povo no Ginásio. Este Salão ficava no bairro ocidental da Capital.

[...]

Disse Mestre Zhi: "o filho piedoso, no tratamento dos idosos, procura dar-lhes alegria e não se opõe aos seus desejos; alegra-lhes os ouvidos e os olhos, e cuidará de que tenham aposentos cômodos. Sustenta-os fielmente da sua comida e bebida. A piedade filial é para toda a vida. E a vida que parece acabar, não acaba, pois mortos os Pais, o filho piedoso continuará a gostar do que eles gostaram e a respeitar o que eles respeitaram. Faz-se isso com os cães e os cavalos, quanto mais com os homens?"

No tratamento das pessoas de idade, os Cinco Patriarcas foram exemplares. As Três Dinastias deram normas, além disso. Os Cinco Patriarcas trataram os velhinhos exemplarmente: via-se o espírito com que os tratavam, mas não deram normas. Ora o que há de bom deve-se anotar para estimulo histórico. Assim nas Três Dinastias deu-se exemplo, tratando os velhinhos, e também se deixaram normas e ritual a cumprir, em vista do exemplo para a história.



49. Confúcio e os 5 deveres universais.
Confúcio nos apresenta aqui, sucintamente, o que ele entendia serem as cinco obrigações fundamentais da vida em sociedade. Tais regras tornariam-se referência na vida chinesa, sendo empregadas até os dias de hoje.

Cinco são os deveres da obrigação universal, e três são as qualidades morais através das quais eles são cumpridos. Os deveres são entre governante e governado, entre pais e filhos, entre marido e mulher, entre parentes mais velhos e mais jovens, e entre amigos. Estes são os cinco deveres da obrigação universal. Sabedoria, compaixão e coragem – estas são as três qualidades morais dos seres humanos reconhecidos universalmente. Não importa de que maneira as pessoas exercitam essas qualidades morais, o resultado é o mesmo.



50. Xiaojing – A piedade filial.
Embora atribuído a Confúcio, o texto do Tratado da Piedade Filial (Xiao Jing) só parece ter surgido posteriormente. Nele se desenvolvem os temas dos deveres sociais propostos anteriormente pelo sábio, servindo de guia geral para entender os fundamentos da sociedade chinesa e tornando-se muito popular a partir da época Han.

Uma vez, quando Kung-ni (nome de casamento de Confúcio) estava desocupado e seu discípulo Zang sentado junto dele, fazendo-lhe companhia, disse o Mestre: “Shan, os antigos reis possuíam virtude perfeita e uma regra de conduta que tudo abrangia, e por meio delas se punham de acordo com tudo o que existe sob o Céu. Mediante a prática dessa virtude, o povo era levado a viver em paz e harmonia e não havia má vontade entre superiores e inferiores. Sabes qual era?” Zang levantou-se de sua esteira e disse: “Como poderia eu, Shan, que sou tão desprovido de inteligência, ser capaz de sabê-lo?”

O Mestre disse: “Era a piedade filial. Pois bem, a piedade filial é a raiz de toda virtude e o tronco do qual nasce todo ensinamento moral. Senta-te de novo e te explicarei a questão. Nossos corpos – cada fio de cabelo, cada fragmento de pele – nós herdamos de nossos pais e não devemos atrever-nos a danifica-los ou feri-los. Este é o começo da piedade filial. Quando formamos nosso caráter mediante a prática da conduta filial, para tornar famoso nosso nome nas idades futuras e glorificar com isso nossos pais, este é o fim da piedade filial. Começa com o serviço de nossos pais, continua com o serviço do governante, e se completa pela formação do caráter”.

Na Ode Maior do Reino se diz:
Pensa sempre no teu passado,
Cultivando tua virtude.

A piedade filial no Filho do Céu: Aquele que ama seus pais não temerá incorrer no perigo de ser odiado por homem algum; e aquele que venera seus pais não temerá incorrer no risco de ser desprezado por homem algum. Quando o amor e a veneração do Filho do Céu são assim ao máximo no serviço de seus pais, as lições de virtude afetam todo o povo e se convertem num modelo para todos, dentro dos quatro mares. Esta é a piedade filial do Filho do Céu. No Marques de Fu se diz, a respeito dos Castigados: “O homem Único será feliz e os milhões de homens do povo dependerão daquele que assegura sua felicidade”.

A piedade filial nos grandes funcionários e dignitários: Não se atrevem a levar outras vestes que não as indicadas pelas leis dos reis antigos, nem a falar outras palavras que não sancionadas por sua linguagem, nem a exibir outra conduta que a exemplificada por seus métodos virtuosos. Desse modo, não sendo nenhuma de suas palavras contrárias a essas sanções e nenhuma de suas ações contrária à sua conduta devida, não brota de seus lábios uma linguagem excepcional nem se descobrem em sua conduta ações excepcionais. Suas palavras podem encher tudo sob o Céu e não se pode encontrar nelas nenhum erro de linguagem. Suas ações podem encher tudo sob o céu e não podem despertar insatisfação nem desgosto. Quando estas três coisas – suas vestes, suas palavras e sua conduta – são completas como devem ser, podem conservar seus templos ancestrais  Esta é a piedade filial dos altos dignitários e funcionários. No Livro de Poesia se diz:

Nunca está ocioso de dia nem de noite
A serviço do Único.

A piedade filial entre os subalternos: Assim como servem a seus pais também servem às suas mães e igualmente as amam. Assim como servem a seus pais servem aos seus governantes e igualmente os veneram. Amor se tributa principalmente à mãe e veneração é que principalmente se tributa ao governante, quando estas duas coisas são cultuadas no pai. Portanto, quando servem ao governante com piedade filial, são leais. Quando servem aos seus superiores com veneração, são obedientes. Por não faltarem, em sua lealdade e obediência, aqueles a quem servem, são capazes de conservar seus vencimentos e posições e manter seus sacrifícios. Esta é a piedade filial dos funcionários inferiores.

No Livro da Poesia se disse:
Levantando-te cedo e indo dormir tarde,
não desonras a quem te deu o ser.

A piedade filial no Vulgo: Seguem o curso do Céu na mudança das estações, distinguem as vantagens dos diferentes terrenos, cuidam de sua conduta e são econômicos em seus gastos, para poder alimentar os pais. Tal é a piedade filial no vulgo. Portanto, desde o Filho do Céu até o homem comum nunca houve ninguém cuja piedade filial carecesse de um princípio e um fim em que não aparecesse a calamidade.

Ampliação da virtude perfeita: Disse o Mestre: “O ensino da piedade filial pelo homem superior não exige que vá de família em família e veja diariamente os membros de cada uma delas. Seu ensinamento da piedade filial é um tributo de veneração a todos os pais que existem sob o céu. Seu ensinamento da submissão fraterna é um tributo de veneração a todos os irmãos mais velhos que existem sob o céu. Seu ensinamento do dever de um súdito é um tributo de veneração a todos os governantes que existem sob o Céu”.

No Livro da Poesia se disse.
O soberano feliz e cortês
É o pai do povo.

“Se não houvesse uma virtude perfeita, como poderia ser reconhecida de modo tão geral pelo povo como de acordo com sua natureza?”



51. Guanzi e Mêncio – as classes sociais.
Nestes dois pequenos trechos, são apresentados a teorização clássica sobre as 4 classes sociais chinesas, por Guanzi, e sobre as 4 classes sociais desfavorecidas, em Mêncio, que integram o imaginário chinês.

Agricultores (nung) são aqueles que devem começar a cultivar a terra assim que a neve derreta; cavalheiros nobres e letrados (shi) devem escutar e prestar atenção ao que os homens comuns dizem, e jugá-los ...mercadores (ku) são aqueles que devem prestar atenção as baixas e altas dos preços e ir, diariamente, ao mercado; Artesãos (kung) são aqueles dedicados a dar forma e função aos produtos destes outros.

[...]

Antigamente, o rei Wen de Qi disse o seguinte: os camponeses cultivaram para o governo um nono da terra; os descendentes de oficiais eram assalariados; nas passagens e nos mercados, os estranhos eram inspecionados, mas não foram taxados seus bens: não havia nenhuma proibição com respeito às lagoas e represas; as esposas e crianças de criminosos não eram envolvidas na culpa deles. Havia os velhos, viúvas ou viúvos; os velhos sem filhos, ou solitários; o jovem e os órfãos - estas quatro classes são as mais destituídos entre as pessoas, e não tem ninguém com quem eles possam contar os seus desejos e anseios; o rei Wen, na instituição de seu benevolente governo, fez deles os primeiros objetos de sua consideração maior, como o Livro de Poesia diz, " O rico pode ter uma boa vida; Mas ai!, para o miserável e solitário"



52. Sima Guang – da conduta correta dos funcionários públicos.
Aqui, Sima Guang propõe um sumário das obrigações devidas pelos funcionários em sociedade, e o modo de valorizá-las moralmente. A classe burocrática sempre foi vista de modo contraditório pela população chinesa: admirada por sua capacidade e inteligência, respeitada por seu poder e autoridade, e muitas vezes odiada pela sua rapacidade e corrupção, os funcionários públicos sempre foram o pilar principal do governo – e, no entanto, também um de seus maiores problemas administrativos...

Na antiguidade, não havia um funcionário encarregado da censura. Todos, desde os grandes dignatários, ministros e altos oficiais, até os artesãos e mercadores, podiam expressar suas censuras.

O cargo foi instituído durante o período Han. Um oficial era escolhido para falar sobre o que era bom e do mau, das qualidades e defeitos do povo e do governo imperial. Não era, pois, um cargo importante?

O homem que o ocupa deve ser capaz de pensar nas grandes coisas e deixar de lado os detalhes; deve dar prioridade a questões urgentes e não se apressar como que pode esperar; deve pensar exclusivamente nos interesses do país e não fazer projetos pessoais. Quem anseia a glória é semelhante a quem persegue seu próprio interesse, e a diferença entre ambos não é grande.

Antes se escreviam os nomes dos funcionários investidos com este cargo em tábuas de madeira. Temi que ao longo do tempo estas tábuas se perderiam, de modo que a partir de agora seus nomes devem ser gravados em pedra.

As pessoas das gerações futuras identificarão esses homens dizendo “este era honesto, este era desonesto, este era justo, este iníquo”. Quem pode não temer um juízo assim?



53. Imperador Jing, de Han – sobre a corrupção.
Neste édito do imperador Jing de Han, o problema da corrupção já afetava de modo claro a instituição política e social do país. O aviso era dado contra aqueles que prevaricavam contra o bem público, o ocasionalmente tais medidas surtiam algum efeito.

O luxo das estátuas de pedra e das esculturas de metal prejudicam a agricultura. Os brocados e os bordados, os vestidos de seda vermelha afetam os trabalhos femininos. Se a agricultura é prejudicada, se passará fome. Se os trabalhos femininos de tecer forem afetados, passaremos frio. Não é freqüente que se sofra de frio ou de fome se não forem cometidas faltas graves.

Eu, o imperador, falo em pessoa: a imperatriz se ocupa agora de criar vermes de seda. Temos feito isso para realizar as oferendas aos antepassados de grãos e roupas apropriadas de sacrifício produzidos por nós, e também para dar exemplo ao império. Não aceitei presente algum, reduzi os salários dos funcionários e diminui taxas e impostos.

É meu desejo que todo o império entenda a importância da agricultura e da criação de seda, para que sempre hajam provisões acumuladas para sanar os males e calamidades que possam sobrevir. Deste modo os poderosos não oprimirão os débeis, os numerosos não ofenderam os exilados, os anciãos terão vida longeva e os órfãos alcançaram a a vida adulta.

Ao que parece, a colheita deste ano não foi abundante, e o povo tem poucas provisões. De quem é a culpa? Acaso existem homens iníquos e perversos ocupando cargos oficiais? Acaso esses homens aceitam suborno e troca de favores, traindo o povo como um pescador que ceva um peixe? Se os prefeitos, que são altos oficiais, encobrem esta falta de autoridade que lhes confere a lei e se associam a estes velhacos para dedicarem-se juntos a bandidagem, sua conduta é inqualificável.

Por este presente decreto, ordeno que todos os funcionários que se mostrem atentos as obrigações próprias de seus cargos. Que o primeiro ministro me dê a conhecer os casos de homens que não cumprem os deveres impostos por sua função, que favorecem e semeiam a desordem. Eles serão chamados a dar conta de seus delitos.

Este decreto deve ser proclamado abertamente por todo o império para que se entenda sem erro qual é minha intenção.



54. Fang Yizhi e os mercadores.
Fang Yizhi (1611+1671) nos conta um pouco, aqui, da vida dos mercadores chineses, classe costumeiramente odiada pelo resto da população. Os mercadores eram entendidos como pessoas que se aproveitavam das regras burocráticas (não sendo letrados), do que foi produzido pelos agricultores e do que foi beneficiado pelos artesãos. Assim, eram entendidos como parasitas, sendo de pouca confiança. Muitas vezes, sua riqueza era o único fator que os afastava das violências sociais. Hoje, contudo, o panorama já mudou bastante na China Moderna.

Antigamente se falava da alegria dos mercadores, agora falaremos de suas misérias. Ontem a noite fui de barco ao bosque dos plátanos, para ver o vai e vem dos barcos dos comerciantes. Ouvi sua conversa ao ar livre, todos diziam que era difícil ser mercador nos rios e nos lagos. Este ano, sobravam bandidos na região, e era impossível viajar a noite. Como evitar isso? Ainda que não empobreçam comprando barato e vendendo caro, diziam que é penoso ter que correr léguas e léguas enfrentando o vento e as ondas. Ademais, encontram ainda oficiais aduaneiros ferozes e exigentes, que discutem ao menor detalhe e infligem pesadas multas. A noite, por vezes, não abrem as barreiras das cidades, e os mercadores, impotentes, são obrigados a ficar no meio das rochas ou na beira d’água. Se pudessem levar ouro até a capital e subornar o secretário geral do ministério e a outros, estes oficiais rasos veriam que são muito pouco importantes.



55. Uma canção camponesa.
No imaginário chinês, o camponês é uma figura mística, o sustentáculo do mundo, abaixo somente do letrado. No entanto, o respeito que lhe era devido não aliviava suas fainas. Nesta canção popular do século 17, um camponês canta a rudeza de sua vida, e as dificuldades que enfrenta para cumprir suas funções.

Na primeira lua, começa a minha faina. Se o tempo está seco, semeio a cevada e aveia, se chove ou neva, arranco as ervas daninhas.

Na segunda lua, vou no barco à procura de terra úmida. Sopra um vento tão frio que nem sinto as mãos. Estou coberto de lama, esfarrapado. A terra úmida serve-me para fazer os regos para o arroz.

Na terceira lua, ceifo as ervas ruins e semeio o arroz nos campos para a Festa das Arvores. Ao nascer do Sol levanto-me para a rega, e fico a velar até alta noite. Vigio dia e noite as raízes do meu arroz.

Na quarta lua, trabalho sem parar, ceifo a minha seara, faço a cava, rego com a nória. Levanto-me e acendo a minha lanterna, ainda está escuro. Os camponeses disputam a água, que é rara.

Na quinta lua, faz bom tempo, mas depois chove. Ponho a enxada ao ombro e vou para os campos. Nos quatro pontos cardeais tudo se torna verde. Movo a roda para que a água suba até ao meu campo.

Na sexta lua, os lavradores não têm um momento de descanso. Passo o dia inteiro a arrancar o joio. O sol queima-me, o suor corre-me dos ombros até aos pés. Quando tiro a camisa, as espigas picam-me. Torno a vestir a camisa porque a pele me arde. E o fidalgo que passa e me olha, diz: «Estes aldeões têm a pele tão grossa que nem sentem o calor.»



56. Shijing – a labuta dos soldados.
Embora seja a terra que concebeu Sunzi e o Kungfu, os chineses, em geral, tem aversão à guerra e ao conflito. Neste texto extraído da ancestral coletânea de poemas chinesa, o Shijing, o reclame milenar contra o serviço militar se faz presente.
Ministro da guerra, nós somos as garras e os dentes do rei.

Por que você nos atirou nesse sofrimento, de modo que nós não tivéssemos nenhum lugar para permanecer?

Ministro da guerra, nós somos aguerridos soldados do rei.

Por que você nos atirou nesse sofrimento, de modo que não houvesse nenhum fim de nossas labutas?

Ministro da guerra, você agiu certamente sem discriminação.

Por que você nos atirou nesse sofrimento, de modo que nossas mães tivessem que fazer todo o trabalho de cozinha?



57. Luchi – um calendário campestre.
O calendário oficial chinês era uma atribuição imperial, já descrita no Liji, e regulava a vida econômica e social do império. No entanto, os camponeses dão imagens simples destas regras, como surge neste rude calendário campestre feito por Lichi em torno de +800.

No primeiro mês da Primavera, os vapores do céu baixam e os da terra sobem. Céu e terra estão em harmonia. As plantas crescem e as flores desabrocham.

No segundo mês da Primavera, vem a chuva. Os pessegueiros florescem. Cantam os verdelhões e os falcões metamorfoseiam-se em pombas.

No último mês da Primavera, os influxos vitais atingem o apogeu. Por toda a parte a vida jorra, rompe, fura, abre-se.

No primeiro mês do Verão, as rãs verdes coaxam, nascem as lagartas, os melões incham, a serralha cria semente.

No segundo mês de Verão, chega o calor forte. A louva-a-deus aparece, o lanieiro chama, e o cuco cala-se.

No último mês de Verão, levanta-se uma brisa suave. O grilo instala-se nas fendas das paredes, os jovens falcões ensaiam os primeiros voas, a erva ressequida desentranha-se em borboletas.

No primeiro mês de Outono, vem o vento fresco. Cai o orvalho branco, a cigarra do frio começa a cantar.

No segundo mês de Outono, levanta-se um vento violento. Chegam os patos bravos e as andorinhas partem.

No último mês de Outono, as avezinhas entram na água e tornam-se moluscos. É a altura em que florescem os crisântemos amarelos.

No primeiro mês de Inverno, a água gela.

A terra está transida de frio. Os faisões entram na água e tornam-se lagostas. Os arco-íris extinguem-se.

No segundo mês de Inverno, a água torna-se em gelo. A terra estala. As aves noturnas calam-se, os tigres acasalam. O arroz começa a medrar. Os veados perdem as suas armações.

No último mês de Inverno, os patos selvagens fogem para o Norte. A pêga constrói o seu ninho. Os servos cortam o gelo e amontam-no nas grutas para se refrescarem no Verão.



58. Maozedong – a análise das classes chinesas.
A mente de Maozedong foi capaz de produzir escritos sobre quase todos os tópicos que ele julgava fazerem parte da revolução chinesa. No trecho a seguir, Mao faz uma análise das classes sociais chinesas, dentro de sua perspectiva de marxismo, e de como elas contribuiriam para o processo de modificação do regime.

Quem são nossos inimigos e quem são nossos amigos? Esta é uma questão de importância primordial para a revolução. Se, no passado, todas as revoluções na China não obtiveram senão poucos resultados, o motivo essencial é que fracassaram em unir à sua volta os verdadeiros amigos, para desfechar golpes contra seus verdadeiros inimigos. O partido revolucionário é o guia das massas e jamais a revolução pôde evitar o fracasso quando esse partido orienta as massas por um caminho errado. Para estarmos seguros de não as conduzir por um caminho errado e levá-las à vitória na revolução, devemos velar imperiosamente para nos unir aos verdadeiros amigos, para desfechar os golpes aos verdadeiros inimigos. E, para distinguir nossos verdadeiros amigos de nossos verdadeiros inimigos, devemos empreender uma análise geral das condições econômicas das diversas camadas da sociedade chinesa e de sua atitude respectiva em relação à revolução.

Todos os senhores da guerra, os burocratas, os compradores e os grandes latifundiários ligados aos imperialistas, da mesma forma que essa fração reacionária dos intelectuais que deles depende, são nossos inimigos. O proletariado industrial é a força dirigente de nossa revolução. Nossos amigos mais próximos são o conjunto do semiproletariado e da pequena burguesia. Da burguesia média, sempre oscilante, a ala direita pode ser nossa inimiga e a ala esquerda, nossa amiga; mas devemos constantemente estar em guarda para que esta última não venha desorganizar nossa frente.

[...]

Aquele que se alista ao lado do povo revolucionário é um revolucionário, enquanto o que se coloca ao lado do imperialismo, do feudalismo e do capitalismo burocrático é um contra-revolucionário. Aquele que se coloca ao lado do povo revolucionário apenas em palavras, mas age diferentemente, é um revolucionário nas palavras; um perfeito revolucionário é o que se coloca não só nas palavras, mas nas ações, ao lado do povo revolucionário.

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