A MULHER NA CHINA

Pode parecer estranho dedicar um tópico sobre a questão da mulher na China, quando ela poderia ser incluída na seção Sociedade. No entanto, creio que isso reduziria em muito o exame que o problema merece no caso chinês. A condição feminina na China tem sido objeto de controvérsias milenares, caracterizadas pela tentativa constante de imposição do masculino sobre a sociedade. Assim sendo, a literatura chinesa proporcionou peças diversas sobre este debate, que tanto ressaltam a necessidade de enquadrá-la como um ser submisso quanto defendem a sua liberdade como ser autônomo e consciente. O primeiro destes documentos é o livro de Banzhao (séc. +1), intelectual chinesa da época Han que escreveu o Lições Femininas (Nujie), cujo teor dos trechos escolhidos é predominantemente machista, baseando-se nos discursos do Liji. Seu livro, porém, é objeto de discussão, posto que outros trechos parecem contradizer esta postura. Do mesmo período, no entanto, o Livro da Alcova (Fang Chungshu) trata a mulher como um ser responsável pelo equilíbrio cósmico, e que por isso deveria ser tratada em pé de igualdade (e, dependendo da situação, até mesmo como um ser superior em certos aspectos). Os Analetos Femininos (Nu Lunyu, da época Song) são uma tentativa posterior de estrutura um confucionismo feminino inteiramente baseado na misogenia, ou seja, na submissão da mulher. As três seleções seguintes: Mercado de concubinas, cartas familiares e Enfaixamento dos pés são desdobramentos mais recentes destas nefastas práticas machistas. O trecho de Maozedong ilustra a proposta comunista em renovar a visão da mulher na sociedade chinesa, mas o texto atual de Xinran, As boas mulheres da China, revela que a modernidade preserva muito ainda do preconceito e da desigualdade derivadas destas épocas.



59. Banzhao – o Tratado das Mulheres.
No controverso texto de Banzhao, dois aspectos aqui são revelados; um, de como a mulher deve ser humilde e dedicada; em outro texto, porém, Banzhao defende que as mulheres devem ser educadas como os homens, como forma de cumprir mais eficazmente a sua natureza yin. As inferências sobre tais questões tem, frequentemente, ensejado análises bastante diferentes sobre a situação da mulher na China Han. Mais do que um simples ser subserviente, talvez a posição feminina fosse justamente o contrário; ou ainda, a tentativa de educá-la seria uma forma de ir contra o sistema ou referendá-lo? Um estudo mais amplo sobre as questões encontra ainda um bom terreno para debate, embora seja consensual que esta época marca o recrudescimento de um discurso machista entre os intelectuais chineses.

Humildade: No terceiro dia após o nascimento de uma menina, os antigos observavam três costumes; primeiro, colocar o bebe debaixo da cama; segundo, dar-lhe um caco de cerâmica quebrada para brincar; terceiro, anunciar seu nascimento para seus antepassados por meio de uma oferenda. Colocar o bebê debaixo da cama indica claramente que ela é humilde e fraca, e que deve considerar antes seus deveres para com os outros do que para si mesma. O caco de cerâmica a ensina que deve conhecer bem cedo seus ofícios, e trabalhar bastante para ser conhecida como dedicada. O anúncio do nascimento aos antepassados significa nitidamente que ela tem o dever fundamental de dar continuidade a família, aos ritos e ao serviço.

Estes três costumes antigos definiram os modos de vida de uma mulher comum, bem como o que ela deve aprender dos ritos, das tradições e das cerimoniais.

A mulher modesta serve, antes de tudo, aos outros; põe-se por último, antes mesmo de si. Se faz algo de bom, não menciona; se faz algo ruim, nunca o nega. Nunca deixa desonrar-se, e resiste quando outros lhe falam ou fazem mal. Aparenta sempre ser temerosa e medrosa. Quando uma mulher segue tais preceitos, ela pode ser dita humilde, mesmo na frente dos outros.

Uma mulher deve dormir tarde e acordar cedo para seus deveres. Não deve recusar trabalhos fáceis ou difíceis. Deve ser arrumada, laboriosa, cuidadosa e sistemática. Quando uma mulher realiza estas coisas, ela pode ser dita dedicada.

Uma mulher deve ser correta na maneira de servir, humildemente, ao seu marido. Deve proporcioná-lo paz de espírito e tranquilidade, cuidando de seus casos. Não deve ser bisbilhoteira, e não rir de modo idiota. Deve ser limpa, e arrumar de modo higiênico os vinhos e a comida, bem como as oferendas aos antepassados.

Quando uma mulher observa estes princípios, pode ser considerada como continuadora dos deveres de adoração ancestral.

Nenhuma mulher que observa estes três princípios caiu em desonra ou teve má reputação. Se uma mulher não observar estes princípios, como pode querer ser honrada? Como pode evitar atrair desgraça para si mesma?

Marido e Esposa: O caminho da esposa e do marido estão intimamente ligados, tal como yin e yang, e estão ligados desde o tempo dos deuses e dos antepassados. Grandes são o Céu e a Terra, os alicerces de todos os relacionamentos humanos. Por isso As Recordações dos ritos (Liji) louvam a união entre homem e mulher; e o Tratado das poesias (Shijing), na primeira ode, manifesta os princípios desta união. Por isso mesmo este relacionamento é um dos mais importantes.

Se um marido for indigno de sua esposa, então ele não pode controlá-la; se uma esposa for indigna de seu marido, então ela não pode serví-lo corretamente. Se um marido não controla sua esposa, as regras de conduta nas quais se baseiam sua autoridade são quebradas e abandonadas. Se uma esposa não serve seu marido, o relacionamento apropriado entre homens e mulheres não segue o curso natural das coisas, sendo então negligenciados e destruídos. De fato, a finalidade destes dois princípios – o controle da mulher e o serviço ao homem – é o mesmo.

Examinemos agora os cavalheiros da época atual. Sabem somente que suas esposas devem ser controladas, e que as regras de conduta que manifestam seu poder devem ser estabelecidas. No entanto, eles ensinam os meninos a lerem os livros e a estudar a história. Mas eles não tem a menor idéia de como os mestre e maridos devem ser seguidos, e quais ritos para manter um relacionamento apropriado devem ser seguidos. Ora, se apenas se ensina aos homens, e não as mulheres, isso não ignora a relação essencial entre eles?

De acordo com os ritos, a regra para começar a ensinar as crianças a ler fixa o seu inicio na idade de 8 anos, e aos quinze elas devem estar preparadas para o exercício da cultura. Porque apenas os meninos, e não as meninas, podem seguir este principio?



60. Fang Chungshu – o Livro da Alcova.
O contraponto do discurso misógino que se apresenta na época Han está nos anônimos “Livros de Alcova”, surgidos neste mesmo período. Tratados deste gênero foram achados em tumbas Han, ou mantidos por uma tradição intelectual que se recusou a aceitar a posição de submissão da mulher na sociedade, e mostram que um outro entendimento sobre o feminino a colocava em posição de destaque num ponto de vista social e cósmico.

O caminho do Homem e da Mulher: Assim falou o mestre da Harmonia Inicial Primitiva:

Um elemento feminino e um masculino - yin e yang - isto é para nós o caminho. Fecundar o essencial e chamá-lo a vida - isto se transforma numa tarefa. Até onde não alcançam estas verdades fundamentais! Por isso, o Soberano Amarelo fez perguntas à Moça Simples e o velho Peng deu respostas ao rei da Estirpe dos Shang-Yin. O soberano Amarelo perguntou a Moça Simples;

- Perdi parte da minha energia vital e saí da harmonia. Não há mais alegria no meu coração. Meu corpo tornou-se fraco e vulnerável. Que devo fazer?

A Moça Simples respondeu:

A causa da fraqueza dos homens está somente no fato de que aproveitam de forma abusiva de todos os caminhos do relacionamento entre os elementos feminino e masculino. Neste ponto, a mulher é superior ao homem, da mesma forma quando o fogo é apagado pela água. Se você compreende isso e sabe aplicá-lo, você se parecerá com as panelas apoiadas num tripé em que são combinadas harmonicamente as cinco tendências do paladar, fazendo com que surja uma sopa deliciosa de carne e legumes. Quem está bem informado sobre os caminhos dos elementos feminino e masculino desfrutará os cinco prazeres; quem não os conhece e não segue encurtará a própria vida. Quantos prazeres e alegrias ainda podem ser desfrutados! quem não dedicaria atenção a isso?



61. Nu Lunyu – os Analectos Femininos.
Durante o período Tang, Song Ruoxin e Song Ruozhao (dois homens) decidiram escrever um “Diálogos femininos” (Nu Lunyu), inspirados supostamente na obra de Confúcio. O texto, porém, não possui diálogos como os do original, mas apenas dissertações sob forma de conselho ou imposição. Aqui, o machismo assume claramente sua posição, tentando estabelecer uma posição inferior para a mulher. No entanto, a época Tang é uma dos períodos mais ativos das mulheres na sociedade chinesa, e o país chegou a ter uma imperatriz, Wu Zetian. Podemos entender, assim, que o sentido do texto dirige-se então como uma crítica a escalada do feminino naquele contexto.

Sobre o comportamento: A primeira coisa que uma mulher deve aprender são os princípios do comportamento: pureza e castidade. Se você for pura, a castidade a seguirá; se você for casta, será honrada.

Não vire sua cabeça na rua nem olhe para os lados. Não mostre seus dentes quando fala, não mova seus joelhos quando senta. Não mova seu vestido quando se levanta, não demonstre ostensivamente sua felicidade, nem reclame quando estiver com fome.

Dentro ou fora de casa, homens e mulheres devem ser arrumados em grupos separados. Não fique bisbilhotando o outro lado do muro, e não vá muito além dentro da corte. Esconda seu rosto quando olha alguma coisa. Ao sair, você deve ser cobrir. Não dê seu nome a nenhum homem que não seja aparentado. Não faça amizades com mulheres que não venham de boa família. Somente por meios apropriados pode-se ser uma pessoa apropriada.



62. Mercado das concubinas.
Chang Tai (1597+1689) nos fornece, aqui um quadro incômodo sobre as atividades de vendas de mulheres na China Imperial. O texto a seguir trata do mercado de concubinas, escravas sexuais e domésticas, relativamente comum na época, e que envolvia pessoas empobrecidas que não podiam mais sustentar suas filhas.

Em Yangzhou, havia centenas de pessoas ganhando a vida com atividades ligadas aos "cavalos magros" (alcunha do mercado de concubinas). Nunca deveria alguém deixar que se soubesse que estava à procura de uma concubina. Uma vez que isso transpirasse, os agentes profissionais e intermediários, homens e mulheres, enxameariam como moscas à volta de sua casa ou estalagem, não havendo meio de mantê-los afastados. Na manhã seguinte, o homem encontraria muitos deles à sua espera, e o proxeneta que chegasse primeiro o carregaria, enquanto os demais seguiriam atrás, à espera de sua oportunidade.

Ao chegar à casa do "cavalo magro", o cliente seria servido de chá logo que se sentasse. Imediatamente a agenciadora viria com uma moça e ordenaria: "Kuniang (senhorita), cumprimente!" A moça fazia uma vênia. A seguir, era dito: "Kuniang, caminhe!" Ela caminhava. “Kuniang, volte-se!" Ela se voltava, ficando de frente para a luz e seu rosto era mostrado. "Desculpe, podemos ver sua mão?" A mulher enrolava-lhe a manga e expunha o braço inteiro. Sua pele era mostrada. "Kuniang, olhe para o cavalheiro." Ela olhava, com o canto dos olhos. Seus olhos eram mostrados. "Qual é a idade da Kuniang?" Ela respondia. Sua voz era mostrada. "Caminhe mais um pouco, por favor." Desta vez, a mulher erguia-lhe as saias. Seus pés eram mostrados. Há um segredo para julgar os pés das mulheres. Quando se ouve o roçagar de suas saias ao começar ela a andar, pode-se imaginar que tem pés grandes, mas, se usar as saias relativamente altas e mostrar os pés ao dar um passo para a frente, já se sabe que tem um par de pés pequenos, de que se orgulha. "Kuniang, pode retirar-se."

Logo que a moça saía, outra vinha e a mesma coisa se repetia. Costumeiramente havia cinco ou seis moças numa casa. Se o cavalheiro decidisse ficar com determinada jovem, colocar-lhe-ia no cabelo um alfinete de ouro ou outro ornamento; isto se chamava “catai”. Se nenhuma lhe parecesse satisfatória, uma gorjeta de algumas centenas de moedas era dada à agenciadora ou às criadas da casa e outra casa lhe era mostrada. Quando uma agenciadora completava o giro das casas com que operava, outras agenciadoras vinham. Isto continuava por um, dois, talvez quatro ou cinco dias. Era uma coisa sem fim e os agentes nunca se cansavam. Mas, depois que alguém via cinqüenta ou sessenta moças, todas eram mais ou menos parecidas, de cara pintada e vestido vermelho. É como escrever letras; quando se fez o mesmo sinal cem ou mil vezes, não é mais possível distingui-lo. O cliente não sabe o que decidir, ou qual preferir, e acaba por escolher qualquer uma delas.

Depois de feita a escolha, confirmada pelo catai, a dona da casa aparecia com uma folha de papel vermelho e um pincel de escrever. No papel estavam escritos os itens: sedas, flores de ouro, presentes em dinheiro e peças de pano. A dona mergulhava o pincel em tinta e deixava-o pronto para que o freguês preenchesse o total de peças e do presente em dinheiro que estava disposto a dar para ter a moça. Se isso fosse satisfatório, o negócio estava concluído e o cliente despedia-se.

Antes que chegasse à sua própria casa, já ali se achavam tamborileiros, e músicos, carroçados de carneiro e vinhos tintos e verdes. Num instante, papéis cerimoniais, frutas e pastéis também chegavam, e os remetentes voltavam acompanhados pelos músicos. Antes de terem andado um quarto de milha, retornavam com a banda, cadeirinhas de toldo floridas, lanternas florais, tachas, archotes de cabo, carregadores de cadeirinhas, damas de honor, velas, mais frutas, e assados. O cozinheiro chegava com uma carroçada de verduras e carnes, e doces, seguido de toldos, toalhas de mesa, almofadas para cadeiras, talheres de mesa, estrelas de longevidade cortinados de cama e instrumentos de corda. Sem aviso prévio nem mesmo sem pedido de aprovação, a florida cadeira de toldo e outra cadeirinha destinada a acompanhar a noiva saía para receber a nubente, com uma escolta de lanternas nupciais e achortes de cabo. Num átimo, a noiva chegava. Subia e realizava a cerimônia do enlace (curvando-se perante o noivo e os hóspedes), sendo então levada a ocupar seu lugar à mesa de jantar, já posta. Música e cantos começavam e havia muita bulha em toda a casa. Tudo era eficiente e rápido. Antes do Meio-dia, a agente pedia sua comissão, dizia adeus e corria em busca de outro clientes.



63. Cartas de Família de Zen Guofan.
Zeng Guofan (1811+1872) foi um general de renome entre os Qing, e deixou uma correspondência familiar que revela muitos dos detalhes cotidianos da época. Nesta, ele deixa conselhos sobre como tratar as mulheres da família, mostrando a consolidação plena do machismo nesta época.

Quando a noiva (nora) entra em nossa família, deve ser ensinada a ir à cozinha e aprender a costurar, e também a manejar a roda de tecer. Não se deve permitir que ela fique ociosa, pelo fato de vir de um lar rico.

Já sabem a filha mais velha, a segunda e a terceira fazer seus próprios sapatos? Eu gostaria de que as três filhas e a nora me fizessem, cada uma, um par de sapatos por ano, como forma de respeito, mas também de modo que eu pudesse ver seus trabalhos de agulha. Também devem fazer roupas e meias com pano de fabricação doméstica. Desse modo, poderei vigiar a diligência ou a ociosidade das mulheres de nossa casa.

As famílias dos dignitários, hoje em dia, tendem a tornar-se ociosamente ricas, vivendo em fausto. Dão maus exemplos. Quando minhas três filhas estiverem crescidas, quero que se casem em famílias cultas e simples da classe média, que não precisam ser ricas.

Nunca se deve esquecer o plantio de verduras no quintal da casa. A criação de peixes no lago do lado de fora de nossa porta da frente dá a todo o ambiente uma sensação de desenvolvimento e de vida. Criar porcos é também parte importante da economia doméstica. Secam-se, após o outono, alguns dos bambus do terraço traseiro? Por estas quatro coisas , podemos ver se uma família é ativa e operosa, ou se está consumindo sua fortuna. Nenhuma dessas quatro coisas - criação de peixes, de porcos, os bambus e as verduras pode ser negligenciada. Em primeiro lugar, queremos manter a tradição de parcimônia e industriosidade de nossos ancestrais e, em segundo lugar, essas quatro coisas dão sensação de vida e desenvolvimento. No momento em que se entra por uma porta, pode-se sentir um frêmito de atarefada prosperidade. Gastar com essas coisas algum dinheiro e trabalho vale inteiramente a pena.



64. Sobre o enfaixamento dos pés.
O texto de Yu Huai (1617 + 1697) é o primeiro estudo sobre a origem do enfaixamento dos pés, hábito que apavorava os ocidentais chegados a China no século 19. Uma moda estética terrível - mas que não era diferente, porém, do deformante espartilho europeu ou das exaustantes exigências modernas de beleza. Foi proibida no final do século 19, e novamente pela república em 1911, mas apenas como tempo o costume cedeu a modernidade.

Não havia diferença entre os pés das mulheres e os dos homens nos tempos antigos. O Zhouli (Ritos de Zhou) menciona o ofício do "sapateiro", que tinha o dever de cuidar dos sapatos de reis e rainhas. Cita tamancos vermelhos, tamancos pretos, trançados de seda, vermelha e amarela, curvas negras, sapatos brancos, sapatos de linho para uso cerimonioso, não cerimonioso e caseiro, destinados a homens e damas de títulos. Isto mostra que os sapatos de homens e mulheres eram da mesma forma. Em gerações posteriores, os pequenos e delgados sapatos arqueados das mulheres foram muito apreciados por seu diminuto tamanho.

De acordo com pesquisas que fiz, o enfaixamento do pés começou com Li Houcu, de Nantang (937 + 978). Tinha ele uma camareira real chamada Yaoniang (Srta. Yao), notável por sua esbelta beleza e suas danças. O soberano mandou fazer um lótus de ouro, de seis pés de altura, adornado de pedras preciosas, festões e borlas de seda. Esse lótus de ouro, multicolor ficava no centro. Mandou a Srta. Yao atar os pés com seda e acocorar-se em cima do lótus, para sugerir a forma de uma lua crescente. Ela dançou no topo do lótus de meias brancas, e fez piruetas sugerindo as nuvens (com as mangas compridas). Muitas pessoas, então, começaram imitar seu estilo. Foi esse o primeiro começo do enfaixamento de pés.

Esse costume não teve início antes da dinastia Tang. Por isso, entre os poemas escritos por tantos poetas, cantando a beleza das mulheres, descrevendo incessantemente com grande interesse seu aspecto e gestos, a riqueza de seus adornos no cabelo e cosméticos faciais, seus mantos e saias, a delicadeza de seus cabelos, olhos, lábios, dentes, cintura, mãos e pulsos, nem uma só palavra foi dita acerca de seus "pés pequeninos". No Guofu diz-se: "Novo bordado de seda cobria-lhe o alvo tornozelo e o arco de seus pés era como uma. linda fonte". Caoshi (192+232) tem uma frase assim: "Ela usava sapatos bordados para longas caminhadas". Li Bai (701+762) diz em um poema: "Um par de tamancos denteados de ouro; dois pés brancos; como geada". Han Zhiguang escreve: "Seis polegadas de fina pele arredondada resplendem à luz". Tu Muzhi (803+852) escreve: "Mede um pé menos quatro décimos de polegada". O documento "Miscelâneas dos Segredo Han” diz, descrevendo uma jovem escolhida para ser rainha: "Seus pés mediam oito polegadas e seus tornozelos e arcada eram belos e cheios". Tais menções de "seis polegadas" e "oito polegadas" de pés brancos, macios e cheios mostram que os pés das damas antes do período Tang não eram curvados para se assemelharem à lua crescente.

O caso do Soberano Idiota Oriental de Ci (aprox. +500) pode ser lembrado. Fez ele com que sua concubina real favorita a Srta. Pan, pisasse em reproduções de flores de lótus feitas de ouro e arrumadas no soalho e disse: "Uma flor de lótus de ouro nasce de cada passo seu". Isto, porém, refere-se às reproduções de flores de lótus que ela pisou, mas não quer dizer que fossem lótus os seus próprios pés. Cuibu refere em seu livro sobre a origem das Coisas, o Guqinchu, que havia sapatos com cabeças de fênix, com duplas solas, mas não há indicação de que só se referisse a sapatos de mulheres.

Na dinastia Sung, poucas mulheres enfaixavam os pés antes do reinado de Yuanfeng (1078+1085). Mas, nos quase quatrocentos anos que se seguiram, a partir da dinastia mongol (1277+1367) até o presente, as modas e exageros antinaturais desenvolveram-se firmemente e caíram em excessos.

Todas as mulheres antigas usavam meias. No dia em que a Rainha Yang Gueifei morreu (aprox.+756) em Mahuai, uma aldeã recolheu o pé de um par de suas meias bordadas. Exibiu-o ao público, cobrando cem moedas de quem o tocasse. Li Bai diz em um de seus poemas: "Seus pés são brancos como a geada; ela não usa meias de canos pretos". Um dos nomes dados às meias era chiku (estojo do tornozelo). Quando o Imperador Gaozong (1127 + 1162) soube da morte de seu primeiro-ministro, Qinguei, disse: "Agora, não preciso esconder um punhal em minha chiku". Assim, as meias, ou chiku, eram usadas tanto por homens quanto por mulheres. A diferença é que as meias, nos tempos antigos, eram pregadas solas, o que não se dá hoje. Nos tempos antigos, podia-se caminhar de meias sem sapatos. Hoje, não podemos fazer isso... Zao Zijian diz: "Move-se ela com passos leves. Suas meias de seda ficam empoeiradas". Li Houzi escreve: "Ela desce os degraus perfumados, de meias, trazendo na mão os sapatos de fios de ouro". Tal, na verdade, é a diferença entre os sapatos e meias antigos e os dos tempos modernos.

De saltos altos não encontro menção nos livros. Parecem ser invenção moderna. Algumas damas de Wu faziam saltos de sândalo, cobertos com fina seda rígida. Umas tinham saltos escavados, trazendo dentro, escondido um saquinho com perfume, para que deixassem um rastro aromático ao caminhar. Isto é uma extravagancia monstruosa. Menciono tal coisa porque os poemas das dinastias Sung e mongol não fazem referência a isso, de modo que os poeta que queiram escrever a respeito de beldades antigas sejam cautelosos neste ponto.



65. Maozedong e a questão da mulher na China.
Maozedong, apesar de ser conhecido como um temido guerrilheiro comunista e organizador de um dos regimes políticos mais duras do século 20, foi igualmente um promotor da igualdade entre os sexos. Abolindo as antigas leis dos casamento, promovendo a entrada das mulheres no mercado de trabalho, e ensejando sua participação nos quadros políticos do partido, Mao combateu intensamente as tradições machistas do passado, alcançando um substancial sucesso nas áreas mais urbanizadas e na educação.

Na China, os homens são normalmente submissos à autoridade de três sistemas (o poder político, o poder do clã, o poder religioso). Quanto às mulheres, estão, além disso, submissas à autoridade dos homens ou o poder marital. Essas quatro formas de poder - política, do clã, religioso e marital - representam o conjunto da ideologia e do sistema feudo-patriarcal e são as quatro grossas cordas que prendem o povo chinês e, em particular, o campesinato. Mostramos, anteriormente, como os camponeses, nos campos, destruíram o poder dos latifundiários. Este é o pivô, a cuja volta gravitam todas as outras formas de poder. A eliminação do poder dos latifundiários abalou os poderes do clã, religioso e marital.... No que se refere ao poder marital, sempre foi mais fraco nas famílias dos camponeses pobres, onde a situação econômica obrigava as mulheres a assumir uma parte maior no trabalho que nas famílias das classes mais abastadas; daí terem, com mais freqüência, o direito de expressão e decisão nas questões familiares. Durante os últimos anos, devido à ruína crescente da economia rural, a própria base da autoridade do marido sobre a mulher se viu minada. Recentemente, com o aparecimento do movimento camponês, as mulheres começaram, em muitos lugares, a criar associações de camponeses; soara sua hora de erguer-se à frente, e o poder marital se enfraquecia dia a dia. Breve, o conjunto da ideologia e do sistema feudo-patriarcal vacilará diante da autoridade crescente dos camponeses.

[..]

É de primordial importância para a edificação da grande sociedade socialista levar as mulheres em massa a participar das atividades de produção. O princípio “para trabalho igual, salário igual” deve ser aplicado na produção. Uma verdadeira igualdade entre o homem e a mulher é realizável apenas no transcurso do processo da transformação socialista do conjunto da sociedade.



66. Xinran e as “Boas Mulheres da China”.
Mesmo a política de Mao a respeito das mulheres não foi suficiente para modificar alguns dos hábitos ancestrais chineses, o que foi constatado por Xinran Xue, radialista e autora que mantinha um programa dedicado as mulheres. A constatação de que o preconceito e a intolerância continuavam foi uma terrível descoberta, mostrando que muito ainda tinha que ser feito neste campo dentro da própria China. Sua obra, “As boas mulheres da China”, é uma coletânea de relatos sobre o tema.

Respeitada Xinran,
Ouço todos os seus programas. Todo mundo na nossa aldeia gosta deles. Mas não estou escrevendo para lhe dizer como o seu programa é bom; estou escrevendo para lhe contar um segredo. Não é bem um segredo, porque todo mundo na aldeia sabe. Há um homem velho e aleijado aqui, de sessenta anos, que comprou uma esposa recentemente. Ela parece muito nova. Acho que foi raptada. Acontece muito disso por aqui, mas muitas das garotas conseguem fugir mais tarde. O velho está com medo de que a mulher fuja, por isso amarrou-a com uma grossa corrente de ferro. A cintura dela está em carne viva por causa do peso da corrente- o sangue escoa pela roupa. Acho que ela vai morrer. Salve-a, por favor. Não mencione esta carta no rádio de modo algum. Se os moradores da aldeia descobrirem, expulsam a minha família daqui. Que o seu programa fique cada vez melhor. Seu ouvinte leal, ZhangXiaoshuan.

[...]

A carta que recebi do garoto Zhang Xiaoshuan foi a primeira a apelar para a minha ajuda prática e me deixou muito confusa. Informei o chefe da minha seção e perguntei o que devia fazer. Ele sugeriu, com indiferença, que eu entrasse em contato com o Departamento de Segurança Pública. Telefonei e contei a história de Zhang Xiaoshuan. O policial do outro lado da linha me disse que me acalmasse.

"Esse tipo de coisa acontece muito. Se todo mundo reagisse como a senhora, morreríamos de tanto trabalhar. E de toda forma é um caso perdido. Temos pilhas de relatórios aqui e os nossos recursos humanos e financeiros são limitados. Se fosse a senhora, eu pensaria bem antes de me envolver. Aldeões como esses não têm medo de ninguém nem de nada. Mesmo que fôssemos até lá, eles poriam fogo nos nossos carros e espancariam os nossos oficiais. Eles fazem o impossível para garantir que suas famílias se perpetuem, pois deixar de produzir um herdeiro seria uma ofensa contra os ancestrais.

[...]

"No interior" disse ele, "o céu está no alto e o imperador está muito longe." Na sua opinião, a lei não tinha poder algum lá. Os camponeses temiam apenas as autoridades locais, que controlavam seus suprimentos de pesticidas, fertilizantes, sementes e ferramentas agrícolas.

O policial tinha razão. No final, foi o chefe do depósito de suprimentos agrícolas da aldeia que conseguiu salvar a garota. Ameaçou suspender o suprimento de fertilizantes dos aldeães, caso ela não fosse solta. Três policiais me levaram até o povoado num carro da polícia. Quando chegamos, o chefe da aldeia teve que abrir caminho para nós por entre os moradores, que nos xingavam e sacudiam o punho na nossa direção. A garota tinha só doze anos. Nós a tiramos do velho, que chorava e praguejava amargamente. Não ousei perguntar pelo garoto que me havia escrito. Eu queria agradecer, mas a polícia me disse que, se descobrissem o que ele tinha feito, os aldeães poderiam assassiná-lo e à sua família. Presenciando em primeira mão o poder dos camponeses, comecei a entender como, com o auxílio deles, Mao derrotou Chang Kai-chek e suas armas britânicas e americanas.

A menina foi mandada de volta para a família em Xining – uma viagem de trem de vinte e duas horas, a partir de Nanquim-, acompanhada por um policial e alguém da estação de rádio. Apurou-se que os pais tinham contraído uma dívida de quase dez mil iuanes tentando encontrá-la.

Não recebi nenhum elogio por salvar a menina, só críticas por deslocar soldados, causar agitação entre as pessoas e desperdiçar o tempo e o dinheiro da emissora. Fiquei abalada com essas queixas. Havia uma garota em perigo e, ainda assim, ir em socorro dela era visto como "exaurir as pessoas e drenar o Tesouro”. Quanto valia, exatamente, a vida de uma mulher na China?

7 comentários:

  1. Adorei o artigo A mulher na china. Parabéns

    ResponderExcluir
  2. Muito Obrigada, não estava conseguindo achar em lugar nenhum, você me ajudou muito, Obrigada mesmo. ^^

    ResponderExcluir
  3. Morei lá. Estou impressionado com seu conhecimento. Parabéns.

    ResponderExcluir
  4. Você salvou uma vida! E isso não tem preço!

    ResponderExcluir
  5. Você salvou uma vida! E isso não tem preço!

    ResponderExcluir
  6. Gostei muito. Obrigada. Pena que não tenha nehuma poesia alusiva à condição feminina. Se tiver idea de como poderei consegui-la, não deixe de a referir.

    Obrigada,
    YR

    ResponderExcluir