HISTÓRIA

Nesta seção inicial, buscaremos compreender a maneira como os chineses entendiam a construção da História (shi). O primeiro a preocupar-se seriamente com o assunto foi o sábio Confúcio (-551-479), que editou os mais antigos clássicos da literatura chinesa – o Tratado das Mutações (Yijing), dos Poemas (Shijing), dos Livros (Shujing), da Música (Yuejing), as Recordações Rituais (Liji) e as Primaveras e Outonos (Chunqiu). Destes livros, dois tratam diretamente sobre a história – o Shujing e o Chunqiu, sendo que o Liji ainda faz largas referências à mesma. Neles, Confúcio lança o modelo de escrita histórica que embasariam seus continuadores: o Shujing é a recolha de grandes discursos e decretos, bem como de detalhes biográficos dos grandes heróis chineses; já o Chunqiu é uma seca cronologia de eventos, arranjados por datas e marcos astronômicos, que precisou ser comentada, posteriormente, para ser compreendida. Ambos os trabalhos serviam de estofo para a discussão de tópicos éticos e morais relativos à vida pública, política e social. Quase 3 séculos depois, Hanfeizi (séc. -3), pensador de uma escola filosófica extremamente radical, o Legismo, propunha o abandono do pensamento histórico e dos exemplos do passado. Se suas teorias serviram para a formação do novo império Qin, no século - 3, não vingaram, porém, no campo da história. Sima Qian (-145-85) é considerado o primeiro grande historiador chinês de fato, organizando os métodos, teorias e modos de apresentação da história chinesa. Seu livro, as Recordações Históricas (Shiji) é um marco na historiografia chinesa, servindo de modelo para os autores posteriores. Quanto a Liuzhiji (+661 +721), seu Compreendendo a História (Shitong) seria o primeiro manual sobre redação e pesquisa histórica, explicando os conceitos, termos e técnicas empregados na confecção da mesma. Sima Guang (+1019 +1086) foi um prolixo historiador e intelectual da época Song (+960 + 1279), e seu Espelho do Governo (Zizhi Tongjian) é uma discussão aprofundada sobre as eras históricas, a descontinuidade entre cronologia, cultura e ideologia, bem como dos propósitos do historiador. Em sua época, no entanto, prevaleceu a interpretação histórica proposta por Zhuxi (1130+1200) em seu Tongjian gangmu, grande filósofo daquele momento que, no entanto, manteve a estrutura de escrita e interpretação proposta pelo Chunqiu (e por esta razão, não incluída aqui). Lu Tanglai (1137 + 1181) e Ma Duanlin (séc. 13) reincorporam, porém, as discussões de Sima Guang, dando continuidade ao processo de “desconstrução” das “certezas históricas”. Por fim, Kang Youwei (1858 + 1927), pensador da época final do império Qing, propunha uma interessante teoria de evolução histórica, que previa a integração do mundo numa era futura.

1.Shujing – Discursos de Yao.
O Canon de Yao - Neste texto, um dos soberanos míticos da China, Yao, determina que dois irmãos, Xi e He, sejam seus enviados para medir o mundo (ou seja, a China) e definir as fronteiras, a medição do espaço e do tempo. Nele vemos, pois, o embrião da idéia confucionista de articular a natureza, o cosmos e a soberania.

Examinando a Antigüidade verificamos que o Di Yao era intitulado Fang-xun. Era respeitoso, inteligente, culto e meditativo, de modo natural e sem esforço. Era sinceramente cortês e capaz de toda complacência. A brilhante influência dessas qualidades era sentida nas quatro partes da terra e chegava ao Céu por cima e, por baixo, a terra.

Fez com que se distinguissem o capaz e o virtuoso. E daí seguiu-se ao amor de todos nas nove classes de sua casta, que tornou harmoniosa. Também ordenava e educava os habitantes do seu domínio, tornando-se todos brilhantemente inteligentes. Finalmente uniu e harmonizou milhares de Estados e assim se transformam as gentes de barrete negro. O resultado foi a concórdia universal.

Determinou a Xi e He, em respeitoso acordo com sua observação dos vastos céus que calculassem e delineassem os movimentos e aspectos do Sol, da Lua, das estrelas e dos espaços zodiacais, entregando desse modo as estações à observação do povo.

Determinou ao segundo irmão Xi, especialmente, que residisse em Yu-i, no chamado Vale Claro, e ali recebesse respeitosamente, como a um hóspede, o Sol nascente, e ajustasse e organizasse os trabalhos da Primavera. “O dia – disse – é de extensão média e a estrela está em Niao. Assim poderás determinar exatamente a Primavera média. As criaturas distantes nos campos e os pássaros e animais concebem e se juntam”.

A seguir ordenou ao terceiro irmão Xi que residisse em Nan-jiao, na chamada Capital Brilhante, aí ajustando e organizando a transformação do Verão e observando respeitosamente o limite exato da sombra. “O dia – disse – está em sua maior duração e a estrela está em Huo; assim poderás determinar exatamente o Verão médio. As criaturas estão mais dispersas e os pássaros e animais têm curtas penas e pelos e mudam suas penugens”.

Ordenou separadamente ao segundo irmão He que residisse no oeste, no chamado Vale Escuro, e ali convocasse respeitosamente o Sol poente a fim de ajustar e organizar os trabalhos completos do Outono. “A noite – disse – é de duração média e a estrela está em Xu. As criaturas sentem-se cansadas e os pássaros e animais têm suas penugens em bom estado”.

Mais tarde determinou ao terceiro irmão He que residisse na região do norte, na chamada Capital Sombria, e ali ajustasse e organizasse as mudanças do Inverno. “O dia – disse – está em sua menor duração e a estrela está em Mao. Assim poderás determinar exatamente o Inverno médio. As criaturas ficam em casa e a penugem dos pássaros e animais é então abundante e espessa”.



2.Chunqiu – Cronologia Histórica.
As “Primaveras e Outonos” se constituíam de uma cronologia, feita por Confúcio, para relembrar eventos de cunho moral e histórico. Por esta razão, seu texto é seco e pouco explicativo – na época de Confúcio, tais eventos eram conhecidos e debatidos. No entanto, para que não se perdessem tais interpretações, diversos comentários do livro foram feitos, dos quais o mais famoso, na tradição, é o Zuozhuan, de Zuo Qiuming. Suas datas são incertas; no entanto, o que vemos nos “comentários” é, justamente, a explicação que o autor busca fixar sobre um acontecimento.

11º ano do Duque de Xiang, de Lu.
O Duque Chen assassinou o ministro Xieye.

Comentário: O Duque Chen, junto com dois ministros, Kungning e Yi Huangfu, eram amantes da viúva Chi, de um antigo servo do Duque Chen chamado Xia. Um dia, os três pegaram uma peça de roupa íntima da cortesã e começaram a fazer piadas.

Xieye os admoestou sobre isso, dizendo: se duques e ministros fazem este tipo de brincadeira imoral, o povo não terá bons exemplos, e logo vai fazer o mesmo.

O Duque se envergonhou, e prometeu não mais fazê-lo. No entanto, os ministros não gostaram da reprimenda, e fizeram um complô, junto com Chen, para assassinar Xieye, o que ocorreu logo.



3.Liji – As Eras históricas.
O que se apresenta nesta seleção do Liji é a constituição de uma teoria para explicar as fases de decadência e ascendência da civilização chinesa. No Lunyu (Diálogos), Confúcio afirmava a dificuldade de reconstituir o passado: "Posso falar sobre o ritual Xia? Seu herdeiro, o país de Qi, não preservou suficientes evidências. Posso falar sobre o ritual Yin? Seu herdeiro, o país de Song, não preservou suficientes evidências. Não existem registros suficientes e tampouco homens sábios suficientes; caso contrário, eu poderia obter evidências a partir deles". Esta condição provavelmente deu origem a concepção de uma decadência cultural e histórica, ainda mais perceptível pelo período de crise que se avizinhava. Este é o cerne do texto que se segue.

Quando reinava o grande Dao (na Idade de Ouro) o mundo era propriedade comum (não pertencendo a nenhuma família dominante), os governantes eram escolhidos de acordo com a sua sabedoria e capacidade, havia paz e confiança mútua. Por isso as pessoas não tratavam apenas os próprios pais como pais e os próprios filhos como filhos. Os anciãos sabiam prezar a sua ancianidade e os jovens sabiam usar o seu talento, os mais moços tinham os velhos por quem olhar, e as viúvas desamparadas, e os órfãos, e os mutilados e aleijados eram tratados com carinho. Os homens tinham afazeres específicos e as mulheres cuidavam dos lares. Como as pessoas não desejavam ver seus bens desperdiçados, não tinham motivo para os conservarem egoisticamente para si; e como as pessoas tinham energia mais do que suficiente para o trabalho, não precisavam limitar-se a trabalhar só em proveito individual. Por isso não havia malícia nem intrigas, nem ladrões nem bandidos, e conseqüentemente não havia necessidade de cada qual fechar a sua porta (ao cair da noite). Assim era o período do Datong, ou a Grande Comunidade. Agora, porém, já não reina o grande Dao e o mundo está dividido entre famílias adversas (tornou-se propriedade privada de algumas famílias), e as pessoas consideram como pais apenas os próprios pais e como filhos apenas os próprios filhos. Cada qual entesoura seus bens e trabalha apenas em proveito próprio. Estabeleceu-se uma aristocracia hereditária e os diversos Estados construíram cidades, cidadelas e fossos para sua defesa. Os princípios da Li (regras sociais) e do direito funcionam como simples regras de disciplina; por meio de tais princípios os cidadãos procuram manter a distinção oficial de governantes e governados, ensina-se aos pais e filhos e irmãos mais velhos ou mais moços e esposos e esposas a viverem em harmonia, estabelecem-se obrigações sociais, e vive-se em grupos de aldeias. Os mais fortes fisicamente e os mentalmente mais vivos galgam posições de relevo, e cada um trata a sua própria vida. Daí a malícia e os ressentimentos, resultando em guerras. (Os grandes fundadores de dinastias como) Os Imperadores Yu, Tang, Wen, Wu e Cheng, e o Duque Zhou, foram os melhores homens desta época. Sem uma única exceção, foram todos seis profundamente ciosos dos princípios da Li, mediante os quais a justiça foi mantida, a confiança geral foi instaurada, os erros e equívocos foram banidos. Um ideal de verdadeira humanidade, Ren, foi estabelecido, e cultivaram-se as boas maneiras e a cortesia como sólidos princípios a serem seguidos pelo povo. Qualquer autoridade que violasse tais princípios haveria de ser denunciada como inimigo público e destituída do cargo. Este se chama o Período da Xiaokang ou "o Período da Paz Menor".



4.Hanfeizi – Abolir o passado.
Neste texto, o filósofo Hanfei propõe o rompimento com o passado, teoria necessária ao estabelecimento de uma nova ideologia imperial, baseada nos preceitos legistas. No entanto, suas propostas não vingaram, em virtude da importância que a história possui no imaginário e na filosofia chinesa.

Na antiguidade, quando os homens eram uns poucos e as criaturas selvagens abundavam, apareceu um sábio com alguns pedaços de madeira e armou algumas construções, que serviram para as pessoas se guarnecerem dos lobos, tigres e leões que os atormentavam. As pessoas estavam tão felizes que o nomearam o rei do mundo, chamando-lhe de “o grande construtor”. Naquela época as pessoas comiam frutas, verduras, ostras e mexilhões. Mas os alimentos que armazenavam apodreciam logo e muitos ficavam doentes, morrendo. Então um sábio, juntando madeira, fez fogo e cozinhou os alimentos, e a partir daí menos pessoas ficaram doentes. Este sábio foi reverenciado como o homem do fogo.

Na época das grandes inundações, que arrasavam com populações inteiras, Cun e Xia fizeram os canais que desviaram as águas e assim evitaram terríveis calamidades. Não faz muito, alguns reis cruéis foram destituídos por Tang e Zhou.

Agora vejam: se construíssemos cercas de madeira, ou tivéssemos feito fogo na época das inundações, isso teria sido completamente ridículo. Se alguém sugerisse fazer canais para evitar as atrocidades dos reis violentos, também teriam sido inúteis. Os sábios, na realidade, não tomam os sucessos do passado e tentam aplicá-los nos dias de hoje; o que fazem é analisar as necessidades atuais e atuar de modo apropriado.

Havia um granjeiro em Zhou que arava terra, e em seu campo havia um toco de árvore caído. Um dia, um coelho saiu correndo do mato e se chocou contra o tronco, quebrando o pescoço. Ao vê-lo, o granjeiro deixou o arado e se sentou no tronco, esperando que outro coelho fizesse o mesmo. Só que nenhum outro coelho bateu no tronco, no inverno ele não teve o que comer porque descuidou de suas tarefas e terminou sendo motivo de piadas para os vizinhos. Por isso eu digo: todos aqueles que se valem das regras do passado para governar nos dias de hoje, podem ser chamados com justiça de “Vigilantes do tronco”.



5.Sima Qian – Recordações Históricas.
No primeiro trecho selecionado do Shiji, Sima Qian explica como organizou a produção de sua obra de história; no segundo texto, ele aponta como funciona a teoria dos ciclos dinásticos, findando com a época Han, na qual escrevia.

Busquei preservar e garantir a continuidade das antigas tradições imperiais para que elas não fossem corrompidas ou perdidas. Sobre a carreira dos grandes reis, eu pesquisei seus começos e examinei seus fins; eu vislumbrei seus tempos prósperos e observei seus declínios. Em todos estes casos, eu os discuti e examinei, e o que fiz foi uma introdução geral a história das três dinastias e aos anais de Qin e Han, vindo desde a época do Imperador amarelo até os dias de hoje, que estão organizadas nos doze anais básicos. Depois de tê-los posto em ordem e os completado, em função de algumas diferenças na cronologia de alguns períodos, em que as datas não estão claras, eu as organizei nas tabelas cronológicas. Sobre as mudanças nos ritos e na música, sobre a astronomia e o calendário, sobre o poder militar, as montanhas e os rios, espíritos e deuses, a relação entre o céu e a terra, as práticas econômicas e suas mudanças ao longo do tempo, eu fiz os oito tratados. (...) Para aqueles que serviram com espírito moral aos seus senhores e governantes, para estes eu fiz as trintas casas genealógicas. (...) para manter o nome daqueles que legaram seu nome a posteridade do mundo, eu fiz as setenta biografias. São assim cento e trinta capítulos, 526.500 palavras, o livro da Grande História, compilado em ordem para reparar as omissões e ampliar as seis disciplinas.* este é o trabalho de uma família, designado para completar as variadas interpretações dos seis clássicos e pôr em ordem a grande miscelânea de ditos das cem escolas.

[...]

Este é o parecer do historiador: o governo da dinastia Xia foi marcado por bons augúrios, mas com o tempo deteriorou-se e voltou a rusticidade e a decadência. Shang substituiu Xia, e reformou seus defeitos por meio da virtude da piedade filial. Mas esta piedade degenerou, e as pessoas dirigiram-se para o mundo das superstições e espíritos. Então Zhou seguiu corretamente, corrigindo esta falta por meio dos rituais e da ordem. Mas os ritos se deterioraram porque caíram nas mãos daqueles que os transformaram em um simples espetáculo. Então, tornou-se necessário novamente acabar com este espetáculo, reformar o mundo e buscar novamente um bom destino. Este foi o caminho das três dinastias, e o ciclo dinástico é um caminho que começa, termina e continua sempre.

É óbvio então que nos final de Zhou e nos tempos iniciais de Qin os ritos estavam deteriorados, e a ordem corrompida. Mas o governo Qin falhou ao tentar corrigir estas falhas, adicionando a elas leis e punições duríssimas. Este não foi um grave erro?

Por isso, quando os Han chegaram ao poder, buscando consertar as falhas de seus predecessores, e trabalhando para corrigir o mundo e pô-lo em ordem, seus esforços seguiram corretamente a ordem apropriada e determinada pelo Céu. Eles ordenaram a corte em doze meses, coloriram as vestimentas e as carruagens de amarelo e o restante o acompanhou.



6.Liuzhiji – A narração dos eventos.
O Livro de Liuzhiji, o Shitong, é um manual para escrever história e compreender seus fundamentos e conceitos principais. No texto a seguir, Liu nos apresenta como deve ser feita a narração dos eventos, quais seus tipos e como descrevê-los.

Em escritos históricos que prezam a excelência, o mais importante de todos é a narração dos eventos. Elas falam dos méritos e das transgressões, recordam o que é bom e o que é ruim, e de um modo que é elegante sem ser florido, e substancial sem ser cru. Uma pessoa que as lê se sabe apreciar seu sabor, se o faz três vezes por semana, esquece de seus cansaços; se o faz cem vezes, nunca se satisfaz e deseja ler mais. Se um bom escritor de história não merece ser chamado de sábio, então, que título devemos lhe dar?

[...]

Em geral, há quatro formas de narrativa: há aquelas em que registramos diretamente as habilidades e o caráter de uma pessoa; há aquelas que só descrevem eventos de sua vida; há aquelas no qual tudo é revelado pelos diálogos; e há aquela, finalmente, em que tudo é revelado pelos comentários do historiador.

Como por exemplo, no Tratado dos Livros, a virtude do soberano Yao é louvada com a seguinte frase: “sincero e cortês, e sustentando uma grande modéstia”, ou como no comentário das Primaveras e Outonos sobre a aparência de Zu taishu, descrito como “bonito e acessível”; como havíamos dito, estas frases não necessitam de qualquer explicação: por isso, elas representam o que chamamos de “habilidades e caráter de uma pessoa”.

Temos o caso de uma passagem nos Comentários de Zuo sobre Shen Neng, que foi traído, e pereceu por conta de uma intriga de sua madrasta Liji; na história de Bangu, Qixin assumiu o lugar de seu soberano, expôs-se ao perigo e morreu quando estava cercado pelos Xiang. Aqui, os historiadores não falaram de seus caracteres morais, mas sua lealdade e devoção filial são aparentes; isso é que o chamamos de “descrever os eventos da vida de uma pessoa”.

Novamente, temos um caso no Tratado dos Livros em que o rei Wu, o último soberano de Shang, fez um juramento em que “queimaria e assaria o leal e o bom. E ele matou sua esposa grávida”; nos Comentários de Zuo, recorda-se a discussão de Sui Kuai sobre o estado de Chu, em que ele declara: “labutem nos carros de madeira e esfarrapem suas roupas para trazer abaixo as colinas e os campos que estão cultivados”. Aqui estão ausentes quaisquer comentários sobre o caráter ou habilidades dos personagens, contudo, as palavras chamam a atenção e o assunto foi exposto claramente. Isso se chama “o que é revelado pelos discursos”.

Por fim, na biografia de Weiching, o grande historiador Sima Qian disse que Suchien repreendeu uma vez seu general-chefe por não recomendar ou usar seus homens apropriadamente; no mesmo Livro de Han, há um elogio no término da biografia de Xiaowen, que diz; “quando o rei de Wu fingiu uma doença e não veio cortejar o imperador, este lhe concedeu um tamborzinho e uma baqueta”. Estas são informações retiradas de uma biografia ou de um anal, mas foram separadas pelos historiadores, e é isso que chamamos de “revelado pelos comentários do historiador”.

Assim, estes quatro tipos de narrativas – habilidades e caráter, atos e eventos, discursos ou comentários – não são mutuamente dependentes. Na verdade, se elas forem ajuntadas em uma única narrativa, serão muitas as informações e o desperdício será grande. Porém, ao longo dos clássicos e das histórias isso ocorreu muitas vezes. Talvez apenas um ou dois de mais de dez historiadores tenham obtido algum sucesso nesta questão.

Há duas regras para a economia de palavras na narração dos eventos; uma, cortando as orações, a segunda, utilizando menos palavras. (...) Cortar fora sentenças é fácil, mas cortar fora palavras é difícil. Somente quando uma pessoa penetra no sentido profundo da narrativa, ela pode falar sobre história. Se as orações forem supérfluas e as palavras repetitivas, isso dará origem a uma complexidade desnecessária e a uma escrita caótica. (...) na narração dos eventos, uma pessoa hábil em somar palavras desnecessárias, ou liberal com a descrição dos acontecimentos, só faz perder tempo com coisas irrelevantes. Mas se alguém busca extrair o essencial, ele sintetizará tudo numa frase ou sentença. (...) Somente assim podemos separar o supérfluo das narrativas, alcançando seu sentido profundo e central. Separando este escolho, as flores se vão, mas as frutas ficam; os restos serão limpos, o bagaço jogado fora e o sumo será degustado.

Ah! Mas quem dera pudéssemos suprimir o supérfluo, e ir mais profundamente até onde temos de ir! (...)



7.Sima Guang – Descontinuidades temporais.
O texto de Sima Guang critica a idéia de continuidade histórica, defendendo que as mudanças nos ciclos dinásticos podem ser dar por razões variadas, e não apenas somente pela teoria do Mandato celeste. Em suma, cada época deveria ser lida por meio de suas próprias fontes, e as generalizações, evitadas.

Apesar das distinções que podemos fazer no fato de que uma dinastia pode ser chinesa e outra estrangeira, uma humana e outra tirânica, de diferentes tamanhos ou poderes, isto é essencialmente o mesmo que acontece nos períodos de desunião dos estados desde os tempos antigos. Como podemos acreditar, assim, que um único estado pode ser considerado o sucessor legítimo, e colocar os outros como falsos ou usurpadores? Nós podemos considerar um estado o legítimo sucessor apenas por ter tirado o poder das mãos de seus predecessores? (...) Desde os tempos antigos as teorias sobre legitimação dinástica não passam de discursos lógicos que forçam os homens a aceitar sem questionar. Como legitimar a ascensão de Qin? (...) Senhor imperador, este humilde servo não pretende saber demasiadamente o que sejam as distinções de legitimação ou continuidade, mas entende que cada estado deve ser compreendido pelas suas próprias realizações. Zhou, Qin, Han, Jin, Sui e Tang fizeram cada um, ao seu modo, a unificação das nove províncias e transmitiram o trono aos seus descendentes. E estes descendentes, com o tempo, perderam seu poder e foram forçados a mover suas capitais, dando continuidade ao ciclo de seus ancestrais, mantendo uma linha de sucessão e esperando trazer novamente a restauração do poder. E foram esses governantes que combateram para manter-se no poder. Então, seu servo deve considerar estes soberanos como legítimos filhos do céu. Ora, todos os outros estados tinham aproximadamente o mesmo território, as mesmas virtudes, empregavam os mesmos títulos e distinguiam seus legisladores, e se formos tratá-los, deveríamos faze-lo de modo equivalente, tal como os antigos estados guerreiros, sem qualquer tipo de favoritismo. Mas este caminho, porém, é uma violência com os fatos e um desrespeito a verdade. Não obstante, é necessário, quando um império assume o poder, estabelecer algum tipo de cronologia para por em ordem a seqüência dos acontecimentos. Han passou o poder para Wei, que passou para Jin; Jin passou para Sung, este para Chen, e depois Sui o tomou para si; Tang venceu os últimos Liang, os últimos Zhou, os Sui, e foi vencido pelo agora Grande Song. Este procedimento é necessário para determinar o nome dos títulos reais destas dinastias, e colocar os eventos num arranjo cronológico que cubra todos estes estados. Este não é, contudo, o procedimento correto para um estado ser honrado e o outro depreciado, ou para determinar as distinções que legitimam ou intercalam as dinastias em questão.



8.Lu Tanglai – A compreensão da história.
Neste breve texto, Lu, um continuador da perspectiva crítica de Sima Guang, alerta sobre a necessidade de uma leitura crítica da história. Enganados pelas fontes, muitas vezes supomos que uma determinada situação ou contexto histórico devem ser aceitos de modo direto, sem uma apreciação mais profunda do texto. No entanto, o que garante que um texto histórico dá uma visão “verdadeira” da história? Os propósitos de um livro só poderiam ser descobertos por uma leitura consciente e crítica, o que consistiria o cerne do trabalho historiográfico.

Hu Qiuzi perguntou uma vez a Liezi porque ele gostava de viajar. Liezi respondeu: “as pessoas viajam para ver sempre as mesmas coisas; eu viajo para observar como as coisas mudam”. Esta é a regra para observar e compreender a história. Muitas pessoas, quando examinam a história, simplesmente olham os períodos de ordem e acham que estão em ordem; olham os períodos de desordem e acreditam que estão em desordem, observam um fato e não sabem mais do que este mesmo fato os diz. Mas isso é realmente apreciação histórica? Quem olha para os acontecimentos de hoje observa coisas favoráveis e perigosas, enxerga erros e acertos de todos os tempos. Abra, porém, um livro diante de si mesmo. Imagine diante de você milhares de coisas ocorrendo ao mesmo tempo, e você terá que decidir qual delas é a que melhor representa o contexto. Se você olha a história desse modo, seu conhecimento o favorece em sua inteligência a perspicácia. Este é realmente o melhor modo de ler a história.



9.Ma Duanlin – A história como metáfora da realidade.
Ma Duanlin deixa clara a idéia de que a história é uma literatura, uma metáfora da realidade. Mesmo sendo fruto de uma comparação exaustiva de fontes, ela se trataria, porém, de uma escolha de temas e de visões por parte do autor, e da sua capacidade em comprová-los.

O filósofo Xunzi disse, há muito tempo atrás: “se você observar o caminho dos antigos reis-sábios, você verá que ele é absolutamente óbvio, pois é o caminho dos últimos reis. O cavalheiro estuda o caminho dos últimos reis e, e com os discursos de cem reis de muito tempo atrás em suas mãos é fácil iniciar uma discussão”. Então, se formos estudar as instituições, examinar as leis e os estatutos, compreenderemos amplamente e entenderemos, assim, que na verdade estaremos buscando estudar os princípios confucionistas.

Após o tempo das Odes, das Histórias e das Primaveras e Outonos, somente Sima Qian pode ser chamado de “bom historiador”. Ele utilizou os anais e as memórias para descrever os períodos de ordem e desordem, a ascensão e queda dos estados, e os oito tratados relatam as matérias principais das leis e instituições. Muitos tentaram depois empunhar o pincel e escrever nas tábuas, mas nenhum alcançou tal nível. Mas, desde o tempo de Bangu e depois, as histórias só cobrem uma dinastia, muito serve apenas a distração dos leitores, e o princípio de continuidade e desenvolvimento foi perdido. Finalmente, porém, Sima Guang escreveu seu Espelho do Governo, cobrindo quase 1300 anos de acontecimentos, selecionando as narrativas de mais de setenta histórias separadas, e as pôs assim na forma de uma obra só. Letrados posteriores que leram suas páginas encontraram coisas do passado e do presente nela. Mas Sima Guang era muito detalhista em seus temas de ordem e desordem, de ascensão e queda de dinastias, e seu tratamento para as leis e instituições era bem delineado. Isso não se deve a nenhuma falta de conhecimento de sua parte, mas a grande quantidade de material que tinha a sua disposição, o que o forçou a focar sua narrativa em determinados eventos, negligenciando outros.

Esta é minha consideração sobre os períodos de ordem e desordem, na ascensão e queda de diferentes dinastias, que não estão relacionados. O caminho de Qin para o poder, por exemplo, não foi o mesmo de Han, e a queda de Sui é diferente da queda de Tang. Cada período tem sua história, e ela é suficiente somente para cobrir o período de uma dinastia, mas não para correlacioná-la com as outras. (...) Então, para entender as razões do gradual crescimento e a relativa importância das instituições em cada período, devemos realizar um estudo comparativo e compreensivo dos começos e fins, para entender seu desenvolvimento, no que encontraremos sérias dificuldades. A história política não depende, para sua continuidade, ser necessariamente coberta, de modo amplo, como no livro de Sima Guang, mas não é possível fazê-la entendendo que as instituições passam obrigatoriamente por uma continuidade histórica. Mas não é exatamente isso que os letrados de hoje deveriam prestar atenção?



10.Kang Youwei – uma teoria sobre o futuro da história.
Kang Youwei foi o autor de uma inovadora teoria histórica, baseada numa leitura do ancestral texto das Primaveras e Outonos. Concebendo um sistema de evolução das sociedades, Kang acreditava que o mundo do futuro haveria de se integrar numa grande comunidade, baseadas em princípios humanísticos. Depois de duas guerras fratricidas e mais um período de conflitos velados, seria possível acreditar na validade de sua proposta para o mundo de hoje?

O significado das “Primaveras e Outonos” consiste na evolução de três eras: a era da desordem, a era da ordem e a era da grande paz. O caminho de Confúcio abarca as três seqüências e estas três eras. As três seqüências são usadas para ilustrar as três eras, e como isso pode ser estendido por cem gerações. O tempo dos Xia, dos Shang e dos Zhou representa a sucessão das três seqüências, na qual podemos observar suas mudanças e acréscimos. Pela observação da mudança destes tempos, podemos saber como as mudanças operarão nas cem gerações seguintes. Como muitas das coisas foram feitas para o povo no passado, os reis seguintes não podem governar da mesma maneira que a dinastia anterior; alguns dos defeitos existentes no sistema anterior se desenvolvem e persistem, e cada dinastia tem, então, que efetuar as modificações necessárias para expurgar os erros antigos e criar um sistema novo. O curso da humanidade progride de acordo com esta seqüência fixa. Aqueles que um dia foram clãs, depois tribos, transformaram-se em nações. E das nações nasceu, então, a grande unidade. Do mesmo modo, antigamente, surgiram os indivíduos que se tornaram chefes tribais; depois, gradualmente se estabeleceram as regras pelas quais estes podiam governar seu povo; ou seja, da autocracia se evolui para o constitucionalismo; depois, do constitucionalismo se evolui para o republicanismo. Do mesmo modo, as relações entre marido e esposa, e entre pai e filho foram gradualmente reguladas e definidas. Quando elas estão presentes, as pessoas cuidam com cuidado e amor de sua sociedade, e voltam gradualmente para o que se chama grande unidade. O reverso disso conduz as pessoas ao individualismo egoísta e a desordem.

Se há então a evolução da desordem para ordem, evoluiremos da ordem para a grande paz. A evolução acontecerá gradualmente, e as mudanças têm suas origens definidas. (...) quando Confúcio redigiu as Primaveras e Outonos, ele analisou a três eras. Durante a era da desordem, ele considerou o seu Estado como centro, e os outros estados feudais como estrangeiros. Na era da ordem ele considerou a China como o centro, e os bárbaros de fora como estando fora do sistema. Na era da grande paz, tudo e todos serão considerados parte do sistema; quem está longe ou perto, grande ou pequeno, todos serão um. Assim se pode aplicar o principio da evolução.

Confúcio nasceu na época da desordem. Agora, as comunicações se estendem através do mundo todo, da Europa a América, e o mundo se envolve na era da grande ordem. Irá chegar o dia quando em toda terra, o pequeno e o grande, o perto e o longe, serão apenas um. Não existirão mais nações, distinções raciais, e os costumes serão sempre os mesmos. Esta uniformidade é a era da grande paz. Confúcio sabia de tudo isso com antecedência.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo blog. Sou professor de Teoria da História e a seleção de textos ajudou a ter uma noção da concepção chinesa antiga de História.

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